Gingando pela Paz no Haiti

Relatos de um capoeirista em terras haitianas

Archive for fevereiro \27\UTC 2009

A capoeira e os laços de amizade

Posted by flaviosaudade em 27/02/2009

 

Saudade e Cambaxirra

Saudade e Cambaxirra

 

 

Em algumas horas estarei voando para o Brasil; pisando novamente na minha terra… A ansiedade é grande demais, são quase 5 meses longe. Cada minuto que passa a saudade aperta mais o peito, e lembranças e imagens povoam a cabeça.

 

Passar tanto tempo em outro país, sem dúvida, é uma experiência muito enriquecedora. Porém, não é qualquer um que consegue tal proeza. É preciso muita perseverança, estar muito consciente da importância daquilo que está fazendo e do objetivo que deseja alcançar. É preciso manter o olhar sempre para o horizonte, mas sem esquecer de onde e de como está pisando. Mas, é importante pisar com a segurança de quem sabe o que faz e o quê quer. E o coração deve ser sempre a nossa bússola, pois ainda que tudo pareça confuso, ainda que sejam muitas as escolhas e os caminhos, ele sempre saberá qual deles devemos seguir.

 

No entanto, é ele mesmo quem diz que a minha casa é grande e que a minha família cresceu. Que mesmo estando no Brasil, parte dele permanecerá aqui no Haiti. Parte dele continuará com cada um de nosssas crianças, assim como parte de cada uma delas vai comigo. Felicidade grande sentir isso, pois nem que desejasse poderia me sentir só.

 

A capoeira tem muitas magias. Uma delas é tecer laços de amizade; laços que são fortalecidos dia-a-dia com a convivência, com a troca de experiências. Seja você quem for, seja qual tenha sido a sua educação, seja qual for a sua cultura ou o idioma que você fala, onde quer que você esteja, sob o signo da capoeiragem somos todos uma grande família universal.

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O sertão vai virar mar. O mar vai virar sertão

Posted by flaviosaudade em 26/02/2009

 

Uma das melhores lições que tive com o meu mestre foi a de entrar na mata e escolher uma boa madeira para fazer meu berimbau. Recordo-me bem que me enchia de alegria quando ele nos chamava para a colheita. Este momento sempre representou muito para mim; o contato e o respeito com a natureza, a sapiência para entrar na mata, o tempo certo, a árvore certa, o corte… Para mim sempre foi um ritual preparar as ferramentas, a caminhada, a escolha da árvore a ser cortada, amarrar os fardos com cipós, a caminhada de volta com os fardos nas costas e a água ao final da jornada. Um aprendizado que não tem preço. 

No Haiti, infelizmente, nossas crianças não terão o mesmo privilégio, pois a maior parte das matas foram devastadas com o cultivo do café e da cana-de-açucar na época da colonização. E para piorar a situação, a principal fonte de energia da maior parte da população é o carvão. Por tanto, o pouco que restou da mata continua em processo de extinção. É difícil mesmo de acreditar que áreas tão extensas foram devastadas.

 

Resultado de anos de devastamento

Resultado de anos de devastamento

 

 

Carvão, principal fonte de enrgia da população

Carvão, principal fonte de enrgia da população

 

Com isso, cresce o perigo de deslizamos em épocas de chuva e dos furacões, pois o solo é arenoso e com muitas pedras. Podemos observar isso muito bem nas estradas ao sul. Rios enormes estão secos e hoje são como grandes feridas no seio da terra. Que só se aprofundam, com a retirada de pedras que servem à construção e decoração de casas. Os carros e caminhões transitam sem nenhuma dificuldade onde antes eram correntezas.

 

Vista do que antes era um rio indo de encontro ao mar

Vista do que antes era um rio indo de encontro ao mar

 

Algumas medidas estão sendo tomadas para o reflorestamento de algumas áreas. Mas, a julgar pela extenção do problema será preciso muito tempo para a situação começar a ser revertida. E algumas ações são importantíssimas para que isso ocorra. A primeira é a democratização da energia elétrica, que provavelmente iria contribuir para a diminuição da extração de madeira; A segunda, a intensificação do reflorestamento, nas áreas de maior concentração populacional e de maior risco de deslizamento, principalmente; A terceira, e na minha opinião a mais difícil, a conscientização da população para a necessidade da preservação da natureza. Esta etapa, além de depender de outras ações, exigirá muito esforço pois é muito complicado falar de preservação da natureza quando a própria existência está em jogo. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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O Carnaval brasileiro e o K-naval haitiano

Posted by flaviosaudade em 25/02/2009

 

 

 

Assim como no Brasil a folia também tomou conta do Haiti nos últimos dias. Na capital Porto Príncipe diversos palanques foram montados para receber os milhares de foliões que tomaram as ruas para celebrar o K-naval haitiano.

 

 

Trios elétricos, sorteio de carros, pessoas fantasiadas, grupos de Rara que, a exemplo dos blocos, arrastam multidões pelas ruas com suas cornetas, barraquinhas e muita festa. Tudo muito parecido com o carnaval brasileiro. Porém, com algumas peculiaridades. Uma delas é que no pré K-naval as escolas promovem bailes para os seus alunos. A maior parte delas aderem a folia e uma pequena multidão se concentra em seus portões. É comum encontrar pelas ruas os pais acompanhando os seus filhos que seguem com o rosto brilhando de purpurina. Uma festa e tanto para elas que não possuem tantas opções de divertimento.

 

 

 

Quem deseja aproveitar o K-naval longe da cidade tem de enfrentar um trânsito caótico.  Leva-se cerca de uma hora para sair da capital; carros, caminhões, motos disputam cada metro, muitas das vezes na contra-mão. Pelo caminho encontramos tap-taps abarrotados de foliões até o teto. Um verdadeiro carro alegórico.

 

 

Jovens fazendo barricadas para pedir dinheiro

Jovens fazendo barricadas para pedir dinheiro

 

 

Pegando a estrada para o sul nos deparamos com pequenas barricadas de jovens fantasiados que param os carros para pedir dinheiro para brincar o K-naval. Encontramos com alguns que tinham seus corpos cobertos de carvão e outros fantasiados de policiais carregando armas de brinquedo.

 

Mas, como no Brasil, após a folia tudo volta ao normal, assim como os problemas que por alguns dias foram esquecidos. É hora de varrer os confetes e serpentinas, guardar a fantasia e retomar a vida.

 

Palanques sendo montados

Palanques sendo montados

 

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Reforço na Equipe

Posted by flaviosaudade em 23/02/2009

Ligeirinho e Nó-Cego recém chegados no Haiti

Ligeirinho e Nó-Cego recém chegados no Haiti

 O Gingando pela Paz ganhou um reforço importante. Do Brasil vieram mais dois capoeiristas para fortalecer o nosso trabalho. Nó Cego, meu irmão mais novo, e Ligeirinho, que tive a felicidade de conhecer anos atrás e de tecer uma bela amizade. 

 

compras em Porto Príncipe

compras em Porto Príncipe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

 

 

Nó Cego, apelido recebido em terras haitianas, seguiu os meus passos ainda novo e iniciou na capoeiragem com 8 anos de idade com o meu mestre, Marcos Wagner, à época pertencente ao grupo Berimbau de Ouro, hoje Brasil-África, escola que tem me ensinado a cada dia. Após alguns anos longe da prática, por conta da família e de outros afazeres, resolveu tirar o abadá e a corda da gaveta e retomar o caminho na arte de fazer mandinga. “Ê, mundo dá volta, camarada”…

 

Almirante e Ligeirinho

Almirante e Ligeirinho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ligeirinho, moleque cabra-da-peste, é pernambucano e morava no Rio de Janeiro há alguns anos. Detentor de um estilo de impressionar, já acompanhava o projeto no Rio, compartilhando e buscando sempre novos conhecimentos. 

 

A vinda deles foi uma alegria para todos nós, para as  crianças, principalmente, que poderão entrar em contato com outros estilos e histórias. Com isso, todos nós saímos gananhando, o projeto ganha força e a família cresce. E muito em breve, se Deus permitir, iremos contar com mais um reforço. Quiça possamos ampliar cada cada vez mais nossas atividades aqui no Haiti para que mais pessoas possam entrar em contato com os benefícios que a nossa arte oferece. 

 

Ligeiro e Nó-Cego nas ruas de Porto Príncipe

Ligeiro e Nó-Cego nas ruas de Porto Príncipe

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No fundo do mar tem dinheiro

Posted by flaviosaudade em 22/02/2009

 

Contrariando a maior parte das notícias veiculadas, a situação no Haiti não é mais a mesma. Apesar dos inúmeros problemas, que persistem e necessitam soluções, aos poucos é possível perceber que a situação é bem melhor.

 

Antes de vir para cá tudo que ouvia era que o país vivia sob intenso conflito, ou melhor dizendo, guerra; que as pessoas viviam em condições de extrema necessidade… Alguns pensavam que eu iria para o Tahiti ou Havaii… Mas quando compreendiam logo mudavam o discurso e diziam que eu cometeria uma loucura.

 

Bem, os conflitos existem, mas numa escala bem menor do que imaginava que fosse encontrar. Na realidade, apesar da insegurança de ser um gingo, e considerado branco [quem diria?] sinto-me mais seguro caminhando nas ruas de Porto Príncipe do que nas ruas do Rio de Janeiro. E enquanto no Rio era comum assistir pessoas sendo assaltadas, brigas no trânsito, ouvir rajadas de fuzil, aqui ainda não presenciei nem ouvi um tiro sequer. Mesmo em áreas consideradas de grande risco, as chamadas áreas vermelhas.

 

Com relação a pobreza, esse é mesmo um quadro alarmante por aqui. No entanto, muitas pessoas vivem bem, e outras tantas com muito conforto. Como qualquer país, ainda que em maior ou menor escala, a desigualdade social está presente e produzindo anomalias das mais diversas.

 

No entanto, no caso deste país caribenho, que tem orgulho de ostentar o título de única revolução vitoriososa feita por negros e o primeiro país a banir a escravidão [nunca é demais lembrar], as coisas estão melhorando a olhos vistos. E não precisamos ser nenhum especialista, ou realizar qualquer estudo para constatar isso.

 

 

Reaparecimento do turismo nas ruas

 

Hoje já podemos ver alguns estrangeiros caminhando pelas ruas, em restaurantes onde antes só eram frequentados por “locais”, andando em Tap-tap`s… Infelizmente não conseguimos registrar este momento em foto, mas devo dizer que isso me trouxe um contentamento muito grande. E, tenho certeza, não tarda para este registro ser realizado.

 

Diferentemente do turismo onde as pessoas desejam ver apenas belas paisagens, fazer compras, Porto Príncipe oferece uma turismo social onde é possível o contato com uma cultura e um povo muito especial. Aqui a vitrine é outra.

 

 

 

Ação civil

 

Hoje encontramos pelas ruas jovens voluntários que atuam auxiliando o trânsito de pedestres. Eles estão na frente das escolas, nos cruzamentos e realizam um trabalho fundamental pois é comum o motorista não respeitar o pedestre e conduzir de maneira agressiva.

 

 

 

Novas linhas de ônibus

 

Como foi dito aqui no Blog, o povo haitiano conta hoje com novas linhas de ônibus que estão facilitando o deslocamento e trazendo um pouco de conforto. O aperto nos tap-tap`s continuam e eles ainda são o principal meio de transporte da população. Mas, já é um sinal de melhora.

 

Por fim, após a “virada da canoa” pela qual passou, só nos resta desejar que o Haiti consiga vencer os estigmas deixados por um passado de conflito. E, principalmente, que o mundo (re)conheça o valor da sua cultura e da sua gente.

 

“A canoa virou marinheiro

Mas no fundo do mar tem dinheiro…”

 

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A Comunicabilidade na Capoeira

Posted by flaviosaudade em 20/02/2009

 

 

 

Uma das valências mais importantes da capoeira é a comunicabilidade, que está presente em diversos de seus elementos. Nos cânticos as mensagens estão sempre convidando o ouvinte para um exercício de reflexão. Mas, é no corpo que o diálogo parece ser mais intenso.

 

Para o iniciante, a capoeira apresenta inúmeros movimentos aparentemente estranhos. Principalmente os mais baixos, em que ele tem de estar em contato com o chão, é muito comum sentir desconforto, desequilíbrio. Parece mesmo que o corpo reclama no momento em que lhe é solicitada uma nova posição. E é muito comum o esquecimento das movimentações mais simples.

 

Porém, a maior parte desses movimentos não são novidade. Na infância o corpo está habituado a maior parte deles por conta do hábito de engatinhar. Mesmo uma queda normalmente não oferece grande risco, pois o contato com o chão é intenso. No entanto, no momento em que nos acostumamos a andar de pé isso vai se perdendo e o chão parece estar mais longe. Passamos a temê-lo, principalmente quando repentinamente temos de recorrer a ele. Neste momento é muito comum ocorrerem traumas e fraturas.

 

Porém, ainda que o praticante encontre dificuldade, todas essas informações continuam contidas em seu corpo, bastando apenas que ele as acesse. E é exatamente o que a capoeira oportuniza nos seus primeiros momentos de aprendizado. Permite ao praticante resgatar essas informações. Inicia-se aí uma das etapas mais importantes, em que ele começa a tomar consciência do seu próprio corpo. E apesar da dificuldade inicial, com a prática os movimentos se tornarão tão normais como o hábito de caminhar.

 

Por esta razão, nesta primeira etapa, é importante que o educador ensine movimentos em que o aluno esteja em contato com o chão, que exijam do corpo posições diversas. A ginga, as descidas como as esquivas, negativas e o aú oferecem resultados muito positivos e são extremamente importantes para toda a sua aprendizagem futura.

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Muita Boca-de-calça*

Posted by flaviosaudade em 20/02/2009

 

O Haiti sofreu uma forte influência de alguns países. Das culturas que mais deixaram a sua marca está a francesa e a americana. Pode-se notar com facilidade a forte presença das duas; a francesa, principalmente no idioma e a americana, na forma de se vestir de alguns jovens. Neste quesito, podemos notar uma característica interessante. Os homens haitianos, incluindo os meninos, estão sempre vestindo calças; é pouco comum ver pessoas usando bermudas. Segundo ouvi, as pessoas que utilizam bermudas não são bem quistas, sendo comparadas até mesmo com vagabundos.

 

A utilização da calça parece ser uma dissonância em um país cujo o clima é extremamente quente, onde a chuva é fenômeno difícil de ocorrer. Ainda assim, é muito comum encontrar pessoas usando até mesmo camisas sociais e gravatas. E andar sem camisa por aqui é um fenômeno mais raro que a chuva.

 

E assim como as culturas francesa e americana, a cultura brasileira já se faz muito presente, principalmente pela influência do futebol, uma verdadeira febre por aqui. A influência do futebol brasileiro, creio, potencializou o fortalecimento da cultura brasileira nestas terras e mesmo a ação do exército na estabilização. É muito comum encontrar carros com bandeiras do Brasil nos retrovisores e no lugar das placas dianteiras que, inclusive, não é utilizada por aqui. No seu lugar o carro leva um adesivo no vidro dianteiro. E a cada dia cresce o número de hatianos que falam o português, o que nos leva a crer que não irá demorar para a língua portuguesa tomar um lugar de expressão neste país. Principalmente agora, com a chegada da capoeira.

 

Em breve, iremos adotar o estudo da língua portuguesa em nossas aulas, de início para os jovens. Desta forma pretendemos oferecer mais uma ferramenta para que eles busquem novas oportunidades para as suas vidas. Assim sendo, a presença do Brasil no Haiti é bem mais que apenas uma contribuição para sua estabilização, encerra a comunhão de dois povos para o bem comum.

                                                                                                          

( * ) Boca de calça é um nome dado a um golpe de capoeira em que puxa-se o oponente pelas bocas da calça afim de derrubá-lo.

 

                                                   

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Água de beber. Água de beber camará…

Posted by flaviosaudade em 13/02/2009

 

 

 

 

A metodologia do projeto está baseada em aproveitar todas as oportunidades para o aprendizado e inspiração à novos valores. Desta forma, erros e problemas oferecem uma rica oportunidade para o ensinamento. Um deles é a distribuição da água ao final das aulas, que no início necessitava um cuidado especial. Era comum um ou outro tentar beber mais ou não esperar ser servido. E isso sempre gerou pequenos conflitos.

 

Aproveitando a oportunidade proporcionada pelos conflitos, iniciamos uma atividade para desenvolver o sentimento de solidariedade e serviço ao próximo. Após o treino, sentamos na roda para a volta a calma, quando fazemos alguma reflexão ou damos algum recado. Neste momento escolhemos dois alunos para ajudar na distribuição dos copos de água, que são passados de mão em mão.

 

Este momento foi inspirado em uma foto que vi na ocasião do Fórum Mundial das Culturas, realizado em em Barcelona no ano de 2004. Duas crianças compartilhavam o mesmo prato de comida e alimentavam uma à outra. Esta imagem me impressionou bastante, pois, acredito, pouca coisa individualiza mais o homem que o ato da alimentação. A mulher ainda transcende isso com o ato da amamentação, um dos maiores gestos de doação de si mesmo, creio. Ou quando dão de comer aos irmãos mais novos.

 

Esta imagem significou para mim um forte exemplo de como podemos aprender a servir. Porém, não o serviço que caracteriza a humilhação, que fere a diginidade. Mas, que eleva, execita a humanidade e fortalece os laços de fraternidade. E este é mais um elemento que buscamos inspirar nos momentos que a arte da capoeiragem proporciona.

 

 

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Agogo Haiti

Posted by flaviosaudade em 11/02/2009

 

simbolo da resistência haitiana

Negro Marron: símbolo da resistência haitiana

 

Final de tarde. Um mar de gente em procisão. Expremem-se. Caminham. Na cabeça bem mais que mercadoria, vasilhames d’água. A pomba rôla entoa triste um cantar de desalento… E a escuridão que engole aos poucos a maior parte dos lares não esconde nem ameniza as dores.

 

A água pouca, a comida escassa. Corpos fatigados amontoam-se como que para se recuperarem dos açoites que não cessam. Quiça nos sonhos. Quiça os sonhos dos outros. Quiça ter sonho algum. Quiça esvaziar-se de si mesmo e esquecer tudo que foi. Quiça desejar somente o que poderá ser. E se for como ainda é, que não seja mais. A guerra está mais perto quanto mais distante a paz.

 

Onde estão os olhos os filhos dos filhos teus?

 

Em cada lar uma vela acesa. Ainda que fustigada e cambaleante permanece firme. Como a esperança que resiste ainda em cada um. Uma vida melhor. Onde seja possível encontrar a dignidade. Onde o sofrimento dê lugar a alegria. Onde os dias não sejam tão cruéis.

 

A vontade de viver é como um sentimento que não se aquieta, não se deixa dominar. N`alma a recordação ferrenha de um passado heróico. O horizonte conquistado através de lutas. Pedras e paus. O próprio corpo. Suor e sangue! Irmãos caídos. A esperança cada vez mais forte.

Do solo árido e pedregoso nasce a flor de novos dias. Mas ainda não é o fim da agonia. A mesma mão que assina a liberdade abençoa a servidão. Aquele que dividiu contigo as lágrimas vira-lhe as costas indiferente, pisa sobre o semblante macerado de sua gente.

Mas, o que ouço?

Ainda que ao longe e amiúde o rufar dos teus tambores. O teu canto esplendoroso volta a tomar força novamente. Faz acordar aos poucos a tua gente. Chega de mansinho. Um a um vem despertando. Cada qual ao acordar ouve: Você não está sonhando. E o corpo fala, geme e vibra a anciedade de todos os dias.

Agora é a vida que dança, brinca e bate palmas. A vida que canta, gira, pula, sorri e abraça, perdoa e ama. Que salta dos olhos para morar nos olhos do outro. Agora é olhar para frente. Agora é tirar do exílio todos os sonhos do seu povo.

 

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Brasil e Haiti: similaridades de hoje e de ontem

Posted by flaviosaudade em 11/02/2009

 

O Haiti lembra o Brasil em muitas coisas: o clima, o carnaval, a paixão pelo futebol, alguns costumes, problemas. Não é difícil caminhar pelas ruas de Porto Príncipe e nos deparar com alguma cena em que poderíamos dizer que estamos no Brasil. As ruas, o comércio, é como se um pedacinho da Terra Brasilis fosse transportado para o Haiti.

 

Engraxate 

Assim como os lugares, muitas personagens nos traz este mesmo sentimento. Uma delas é o engraxate, que está em grande número por aqui. Aproveitando-se do costume do hatiano de usar roupas sociais ele é figura bastante comum. 

 

 

A “Mulher Aguadeira” 

Outra personagem é a “mulher aguadeira” que, segundo uma pesquisa, vem das províncias do interior para trabalhar na entrega de água e reside em grupos nas casas dos “donos da água”. A sua vinda para a Capital se dá pelo fato de não ser bom para a imagem ir pessoalmente comprar água nos postos. Assim, para manter o “status”, aquele que pode pagar recebe a água em casa através dos seus serviços.  

 

O Sapateiro 

Além da aguadeira temos os sapateiro, que pode ser encontrado com maior facilidade próximo ao mercado. Com sua máquina, cercado de sapatos e couro por todos os lados, ele ocupa vários pontos das ruas e trabalha em ritmo de facção. Também podemos encontrar alguns deles trabalhando em suas casas; através das portas estreitas podemos assistir um calçado nascer de suas mãos exímias e calejadas, com a ajuda de suas pequenas máquinas de costura. 

 

O Vendedor de raspadinha 

Figura bastante conhecida em algumas cidades brasileiras, o vendedor de raspadinha também está presente por aqui. Empurrando o seu carrinho, com um enorme bloco de gelo, garrafas de suco e cercado de abelhas. O grande problema é a qualidade da água com o que é feito o gelo e o seu transporte; tanto um como o outro nada confiáveis. Para quem não tem costume, ou anti-corpos suficientes, o refresco pode antecipar dias de muito mal estar.

  

Oi, soca o café no pilão. Oi soca o café no pilão… (Saudade)

Em alguns momentos parece mesmo que entramos num túnel do tempo. Assim me senti quando estava a caminhar pelas ruas de Bel Air e me deparei com duas pessoas preparando café. O homem, parecendo sair dos livros de história, socava o pilão enquanto uma senhora parecia peneirar o pó de café. Um cherinho bom de saudade fez recordar as manhãs e as tardes em família no Brasil em que o café era acompanhado de boas conversas. Sem dúvida cenas como esta podem ser vistas nos rincões do Brasil, talvez em alguns quilombos, mas esta se deu em um centro urbano, o que certamente é uma peculiaridade. Assim como as lamparinas que ganham espaço ao cair da noite. 

 

Construções à caminho de Pationville

Construções à caminho de Pationville

 

Outra cena impressiona na familiaridade com o Brasil: as favelas. Elas ocupam uma boa área e estão espalhadas pelos morros da Capital e no caminho de bairros mais afastados como Pationville. Um trecho em especial lembra muito a Rodovia Grajaú-Jacarepaguá. Favelas de ambos os lados e a estrada cortando ao meio. A produção de tijolos aqui parece ser bem grande entre os moradores. No entanto, o material parece ser de baixa qualidade, e as construções, como no Brasil sem qualquer supervisão de um especialista. O que aumenta os riscos de desabamento, assim como ocorreu no ano passado com a escola em Pationville. 

Como os personagens, outras similaridades que podemos encontrar é a rinha de galo que, diferentemente do Brasil, segundo soube  mas ainda preciso confirmar, não é proibida. Em Bel Air, principalmente, é possível ver os galos com cordões presos a suas patas, ou mesmo em cima de bancas. Apaentemente todos eles preparados para a rinha.  

Além dos galos, também encontramos o jogo, não o do bicho, mas casas como loterias. Pela movimentação aqui, como no Brasil, as pessoas apostam muito na sorte. Ainda não temos um concurso grande como a Mega Sena, mas quem ponha fé, isso parece ter de sobra…  

 

 

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