Gingando pela Paz no Haiti

Relatos de um capoeirista em terras haitianas

Archive for the ‘A minha terra tem palmeiras’ Category

Nossa grama pode não ser a mais verde, mas o seu cheiro falará sempre mais ao nossos corações. São Gonçalo, terra que tanto amo.

O Rio de Janeiro continua lindo… e com os mesmos problemas.

Posted by flaviosaudade em 23/03/2009

 

No post anterior falava sobre como a nossa percepção se torna mais aguçada quando ficamos um longo período longe da nossa terra. E de como nos damos conta de detalhes que antes passavam despercebidos. Mas, certas coisas não necessitam de esforço para serem notadas. As precárias condições do sistema de saúde é uma delas. 

 

No Haiti a saúde é um dos grandes problemas da população. E somados a alimentação deficiente, a falta de saneamento básico e de hábitos de higiêne pessoal criam um quadro  profundamente degradante. Algumas instituições contribuem para minimizar este problema, como é o caso da Terra dos Homens, que desenvolvem um belo e louvável trabalho de saúde com crianças do Sul do Haiti.

 

Não tive oportunidade de conhecer mais a fundo o sistema de saúde do Haiti, mas o brasileiro este conheço muito bem. E em poucos dias de visita ao Brasil já deu para me certificar que os problemas permanecem. E dois acontecimentos me levam a esta conclusão.

 

O primeiro ocorreu no bairro da Glória, quando caminhava para o trabalho. Deparei com um guardador de carros estirado no chão. Auxiliado por um amigo, estava desacordado e  apresentava um quadro de pressão alta. Eu verificava os sinais vitais enquanto um taxista acionava o serviço de emergência (SAMU). No entanto, o atendimento foi extremamente demorado. Tempo suficiente para ele melhorar e apresentar depois um quadro de infarto do miocárido. Graças a Deus o socorro chegou, após a ligação de muitas pessoas.

 

Dois dias depois, estava pela Lapa quando avistei uma jovem desmaiada sendo carregada por várias pesssoas. Desta vez, tivemos a sorte de contar com o apoio dos alunos do curso de enfermagem da UNIGRANRIO. Enquanto eles prestavam o primeiro-socorro acionamos mais uma vez o serviço de emergência. Porém, desta vez, nem mesmo consegui aguardar a chegada da ambulância. Esperamos por mais de quarenta minutos sem sinal das sirenes do SAMU.  

 

Porém, pior que o SAMU foi a viatura da Guarda Municipal que passou por nós sem sequer averiguar o que estava acontecendo. Assim, ficaram duas dúvidas. Uma. Eles acharam que a ocasião não era da alçada deles. Mas, até onde sei, prestar socorro é dever de todo cidadão, que dirá um servidor. Duas. Eles não se deram conta do que estava acontecendo. E neste caso permanece o erro, pois são eles encarregados de prezar pela ordem urbana. E se um homem estendido na calça, com inúmeras pessoas à sua volta chama a atenção de uma pessoa comum, de um policial então…

 

E outros tantos são os problemas que não precisam de um olhar mais apurado: Disparos de fuzil; as ruas repletas de moradores de rua que formam verdadeiras confrarias… Mas, assim como o Haiti, ainda estamos amadurecendo, aprendendo a lidar com a liberdade. No Haiti encontramos algumas práticas que aqui já não vemos mais. E, certamente, hoje convivemos com outras tantas que no futuro deixarão de existir. Ainda que para isso seja necessário algumas boas décadas.

 

Lixo. Um problema de lá e daqui

Lixo. Um problema de lá e daqui

  

O lixo nas ruas é um bom exemplo do estágio de amadurecimento do povo. Tanto para nós braisleiros, quanto para os haitianos, ainda é muito difícil alcançar a consciência de que o bem e o espaço público pertence a todos nós e de que cada um é responsavel pela sua preservação. A diferença é que aqui contamos com um serviço de limpeza urbana eficiente, se comparada as duas realidades.

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São Gonçalo do Amarante

Posted by flaviosaudade em 25/01/2009

 

O lugar onde nascemos pode falar muito sobre nós. Mas, talvez não nos demos conta da sua importância. Todas as coisas vividas, todas as coisas sentidas, a família, os amigos que compartilharam conosco de algum momento são como pedras que, postas umas sobre as outras contribuem para o nosso alicerce interior. E isso pode fazer uma grande diferença no decorrer de nossas vidas.

 

De minha parte, tenho muito forte as lembranças da terra de onde vim pequenininho. E devo dizer que carrego muitas recordações. Se alegres ou tristes, a verdade é que tenho comigo um pouco de cada uma delas. E sempre tive muitas pessoas ao meu lado. Assim, se alegres, foram bem mais alegres; se tristes, foi menos difícil superá-las.

 

Hoje, sinto-me como um livro onde para cada pessoa foi/é reservado um espaço. Dessarte, não creio que sou o que penso que sou. Posso ser para mim, mas não para os outros. Sou um para cada um, assim como cada um é um para mim. E como diz a viola de violeiro “não sou bom e não sou mal…”

 

A terra que acolheu meu primeiros passos foi São Gonçalo, na cidade do Rio de Janeiro. Um grande município que pulsa talentos e desejo de viver. Nasci no bairro de Nova Cidade, na Maternidade São Silvestre, onde abri os olhos para este novo mundo às 23 horas do dia 24 de maio de 1977. Dentre muitos que compartilharam comigo esta chegada, estava alguém que se tornaria um grande amigo, o Pacheco. Confrade do jogo de futebol pelas tardes e madrugadas, de muita correria atrás de cafifa, dos piques, dos objetos não identificados no céu… Esta ocasião no dia do nosso aniversário, inclusive. E temos (ainda temos?) a D. Rosa como testemunha.

 

Lá vivenciei muitas coisas, desde enchentes até falta de gás. Ou ainda quando os moradores se uniram para quebrar uma ponte para forçar a prefeitura a pôr fim às várias enchentes que aconteciam à cada chuva. Bem, a rua enche até os dias de hoje e, pelo que parece, os moradores resolveram aceitar a situação. Assim como aceitaram os vários assaltos que se tornaram uma rotina, mesmo à luz do dia.

 

Certamente, muita coisa melhorou, devo dizer. Diminuíram as correrias para ver um corpo estendido no chão (o que pode mudar caso alguém decida por fim ao play ground dos meliantes). Como também diminuíram as correria das crianças para pegar doces no dia de Cosme e Damião. Será que realmente diminuíram ou o “meu mundo” cresceu e dei-me conta que nenhuma dessas coisas eram tão grande assim?

 

É bem verdade que há quem não goste do lugar onde nasceu. Há quem um dia tenha desejado ter nascido em outras experiências… No entanto, cada um tem o seu quinhão nesta vida. E não se passa nada que não se deve passar ou que por nossas escolhas não tenhamos escolhido viver. Assim, tenho orgulho de ser um papa-goiaba e sinto-me demasiado feliz em poder ter compartilhado tantas coisas com tantas pessoas. Mesmo estando loge sinto ainda o cheiro da terra molhada que anunciava a chuva e o chão sob os meus pés de quando ia pelas manhãs até a padaria de Seu João para comprar pão, ou a cavaca.

 

E, estou certo, enquanto todas essas lembranças permanecerem em mim jamais estarei sozinho, esteja eu onde estiver.

 

 

Estação do pensamento

Saudade

 

Sempre foi o mesmo e nunca se queixou

Güentava o tranco sem reclamação

Se se demorava, não deixava de vir

Distante, cumprimentava

Dava gosto, alegria só de ouvir

 

Marcava a hora e por vezes apressado

Logo se ia embora

[Já são dezoito horas]

 

Atencioso, era um portas abertas

Aceitava de bom grado o que lhe reservava a vida

E era um montão de tudo:

Cachorro, bicicleta, trabalhador, vagabundo

Boa praça e um mudo

[Que não era]

Vendedor de lutres, capoeiristas, homens e mulheres, artistas

 

Mas os anos foram passando, e ele se foi amofinhando

[Entristecendo]

Foi sendo deixado de lado

[esquecido]

Com cara de amante largado

[De poucos amigos]

 

Mas, ainda o ouço cá comigo

[O mesmo cumprimento]

Parece até que está aqui

Na estação do pensamento

 

Será que ninguém mais consegue ouvir?

 

E ele ainda se vai, do Barreto até Itambi

E de tempo em tempo ele apita pra mim.

 

Piuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

 

 

 

 

 

 

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