Gingando pela Paz no Haiti

Relatos de um capoeirista em terras haitianas

Archive for junho \30\UTC 2009

“Meu Haiti brasileiro”

Posted by flaviosaudade em 30/06/2009

 

A vitória da Seleção Brasileira vista do Haiti

 

 

A paixão pela seleção brasileira já faz parte da cultura haitiana. O “verde-amarelo” está por todo país: em camisas, nos tap-taps, nas bandeiras pintadas nos muros, penduradas nos retrovisores dos carros ou no lugar da placa dianteira, em comerciais da TV. E na manhã deste domingo este sentimento ficou ainda mais forte. 

Para nós, a vitória da seleção brasileira sobre os Estados Unidos na tarde de ontem teve um gostinho ainda mais especial. Não apenas pela fantástica virada que fez elevar a frequência cardíaca ao máximo; nem tanto pela bela demonstração da força de vontade de nossos jogadores ou mesmo pela qualidade do nosso futebol. Mas, por termos tido o privilégio de assistir a partida na companhia dos nossos alunos. Sem sombra de dúvida, a paixão que eles nutrem pelo nosso futebol é um fenômeno sur-pre-en-den-te.

 

 

Início do jogo. Acompanhamos sem acreditar a seleção americana marcar duas vezes e impor uma boa vantagem logo no primeiro tempo. Particularmente, estava muito apreensivo pois era a primeira vez em que nos reuníamos para assistir a um jogo da seleção brasileira. No dia anterior, na ocasião da reunião de mães, pais e responsáveis, fizemos o convite a já iniciava ali a comemoração, pois a maioria não tem TV em casa ou sequer energia. Não poderia conceber outro final para esta história que não fosse a vitória… 

 

 

A cada bloqueio de uma jogada norte-americana, a cada defesa do Julio Cesar, a cada cartão amarelo que os americanos recebiam, aplausos. A cada chute para o gol… suspiros, mãos levadas à cabeça. A bola teimava em não entrar. E quando entrava diziam não ter entrado… Haja coração! Bem à moda Galvão. Vale tudo! Fechar os olhos. Fazer figa…

 

Figa e muita reza e o gol finalmente sai

Figa e muita reza e o gol finalmente sai

 

E deu certo! O gol veio logo no início do segundo-tempo. Explosão de alegria! Gritos! Abraços! Ainda dá! Vamos lá Brasil!

 

 

 E veio o segundo. Mais abraços! Correria pela sala!

 

 

E o terceiro. É a virada! É a virada! Só alegria!

 

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Fim de jogo e um sentimento enorme de felicidade tomou conta de todos. Aplausos. Beijos na tv. Gritos de Brasil! Brasil! Brasil! O Lucio levanta a taça e ergue os corações das nossas crianças. Ainda posso sentir os abraços. Ainda posso ouvir os gritos de alegria e ver cada olhar de felicidade. O Kaká recebe o prêmio de melhor jogador em campo e as nossas crianças nos ofertam um dos melhores dias das nossas existências. Definitivamente, um dia guardar no coração.

 

 

 

 

Nó-Cego e Alecrim

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O Tabuleiro da hatiana também tem

Posted by flaviosaudade em 26/06/2009

 A Culinária Haitiana

 

Apesar do problema da fome, a culinária haitiana é bastante diversa. Uma variedade de pratos que lembram muito a brasileira, principalmente pelo consumo do arroz e do feijão e pela utilização de temperos e pimenta. Não poderia ser diferente, assim como o Brasil o Haiti é uma páis tropical e ainda mantém muito forte o traço da cozinha africana. Ainda não contam com uma feijoada como a nossa, infelizmente, mas desfilam um arroz cozido no feijão que lembra vagamente o nosso baião-de-dois, e uma variedade de pratos com cabrito bem à moda nordestina. 

Assim como a cozinha brasileira eles também possui gostos peculiares, como a carne de gato. Um hábito que me espantou apesar de no Brasil vez ou outra eu degustar de um churrasquinho de gato com farofa no final da noite. Claro, espero que seja apenas crança popular, porque se eu souber ser esta realmente a procedência da carne, não passo nem perto. A relação que tenho com o bichano não me permitiria tal proeza. Inda mais quando o gato é criado e engordado justamente para o abate. Como fez o nosso tradutor certa vez. Segundo ele, após criar por meses o felino, o abateu sem dó nem piedade e o meteu no espeto. 

 

Acra e repolho

Acra e repolho

 

Outro hábito é comer macarrão pela manhã. Tudo bem que após uma noitada às vezes acordamos com a barriga roncando tanto que até aquele macarrão que sobrou da noite anterior pode cair bem. Mas, particularmente, gosto mesmo de um bom pãozinho francês com manteiga e café. Mas, esta é uma das minhas maiores dificuldades aqui quando o assunto é manter-me firme nos hábitos brasileiros (pelo menos os meus). É incrivelmente difícil encontrar um pão francês fresco aqui. Até porque, pelo que parece, não tem nenhuma padaria. A maior parte dos pães são encontrados nos supermercados ou nas ruas, do tipo forma ou de hamburguer; alguns com algumas noites nas costas. O ideal é levar ao fono e não deixar esfriar, pois do contrário vira um bastão de maculelê. Mas, estando ele quente acompanhado de um bom azeite… realmente é uma boa pedida para a entrada no almoço ou no jantar. Essa é uma das especialidades do restaurante do Hotel Oloffsom.

No Oloffsom, após o pão uma das opções é o Poulet, o nosso famoso frango, à Criole; que pode ser acompanhado com arroz, bananas fritas, legumes e um molho apimentado. O prato custa mais ou menos 250 Goudes, algo em torno de 7 dólares. Ou então, para os amantes do “ bife-com-batatas-fritas”, o Filet de Bouf com arroz e, claro, fritas. Se a pedida for frutos do mar, Crovets, ou seja, camarão, a 500 Gourdes, Poisson, peixe. Ou um afrodiziáco Lambi. Além desses pratos é possível degustar saladas como a Cesar e a Grega, com deliciosos queijos. 

Indo para Petion-Ville podemos encontrar vários restaurantes: cozinha italiana, japonesa… Fora outros mais reservados – alguns bastante rústicos – possíveis de serem descobertos aos poucos, principalmente para quem está em regime de contenção de despesas. E para quem joga nesse time a saída é encarar um dos pratos de restaurantes populares ou as barracas pela rua. Carne, frango grelhado, bananas fritas e, é claro, bastante pimenta. O prato sai em torno de 150 Gourdes, mais ou menos 3 dólares. Uma diferença e tanto para quem joga na defesa… do bolso. 

 

 

Banca com comida na rua

Banca com comida na rua

 

Para quem deseja sentir o gostinho de Caribe a dica é pegar a estrada e seguir para uma das belas praias ao norte ou ao sul. É possível desfrutar de belas praias ainda virgens e degustar uma boa lagosta à beira-mar com  um rumsauer, a versão caribenha da nossa caipirinha que leva rum no lugar da nossa tradicional cachaça.

Não tenho dúvidas de que a culinária haitiana é bem mais rica e diversa. Estou seguro que com o tempo poderei postar outros patros e especialidades. Principalmente os doces, onde podemos encontrar a cocada. Realmente, o tabuleiro da mulher haitiana também tem.

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Novamente as Manifestações

Posted by flaviosaudade em 18/06/2009

 

Novamente as manifestações voltam às ruas da Capital Porto-Príncipe. Pelo que parece o presidente tinha até ontem, 17, para assinar o projeto que elevaria o salário mínimo de 150 para 200 Gourdes por dia, cerca de 5 dólares. O que pelo visto não aconteceu. 

Até a pouco os manifestantes estavam concentrados em torno do Palácio do Governo, no centro da Capital. Pela manhã um jovem foi morto próximo a catedral da Cidade e seu corpo foi carregado para a frente do Palácio pelos estudantes. Segundo notícias no rádio o manifestante foi morto por soldados da MINUSTAH. Mas a informação não é oficial. Estivemos hoje pela manhã em Bel-Air, passamos próximo ao Palácio, nas imediações da catedral e não encontramos nenhuma viatura. Segundo informações, é provável que os manifestantes estejam atribuindo a morte do jovem à MINUSTAH. 

Manifestações próximo ao Palácio do Governo

Manifestações próximo ao Palácio do Governo

 

Normalmente, as pessoas já nos olham com estranhamento quando passamos; principalmente nos guetos. Porém, hoje o clima era outro; as pessoas nos olhavam de um jeito diferente, talvez sem acreditar que poderíamos estar ali. Se em dias comuns se vê poucos estrangeiros em Bel-Air, e quase todos em carros blindados, que dirá em dias de manifestações com carros comuns e com vidros abaixados… 

Pela tarde a situação parece ter ficado mais tensa. Muitos policiais nas ruas, disparos, correria, helicóptero sobrevoando… Mas, até onde sabemos, as militares ainda não haviam intervido. 

No domingo teremos novas eleições. A julgar pela situação o clima deve ficar ainda mais tenso. Apesar do pleito passado não ter havido problemas, com as manifestações dos estudantes acredito haver grande chance de os ânimos ficarem ainda mais exautados. Principalmente por esta manifestação, pelo o que ouvimos, ter motivação política além da reinvidicação pelo aumento do salário mínimo. 

O momento é de expectativa e cuidado.

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Época das Chuvas

Posted by flaviosaudade em 17/06/2009

 

Um ou dois meses após chegar ao Haiti, em torno do mês de novembro, fiquei impressionado com a falta de chuva. Nenhuma só gota. Sol e calor todo o tempo. Paraíso para um carioca… se as praias aqui não fossem tão distantes ou a vida noturna tão insegura. Sentia mesmo a necessidade de ouvir o som ou sentir o cheiro da terra molhada; de tomar banho de chuva como fazia quando criança. 

Mas, nem sempre o som da chuva era um bom sinal. Quando criança minha mãe, meus irmãos e eu morávamos com a minha avó. Uma casa que sofria inundações constantes com as chuvas; de verão, principalmente. Sabíamos até de qual direção vinham as tempestades mais fortes. Corre-corre na madrugada. Levantar móveis. Fechar o buraco do esgoto. Ver a água entrar e tomar conta da casa… Ao menor sinal de trovoada e já não era mais possível dormir. Quantas noites cochilei com a sensação que a água molhava meus pés? Quantas vezes ficamos na madrugada limpando a casa? 

Ontem a tarde caiu uma chuva forte em Porto-Príncipe. Após um longo período sem chuvas, hoje chove quase todos os dias. Porém, diferente da época em que eu sentia falta de ouvir o som da chuva ou o cheiro de terra molhada, hoje mais uma vez sou tomado pela preocupação. Agora com as pessoas que vivem em situação ainda pior daquela que vivi. Famílias inteiras que dividem pequeninos e rústicos cômodos, muitos deles em áreas de alto risco, que vão desde deslizamentos, contaminação. Conheci uma dessas famílias no domingo, na ocasião em que visitei a casa da menina Kimberly (ver gostas de esperança), com a Colibri e amigos da Petit Troll. Sinceramente, é difícil acreditar que seres humanos vivam naquelas condições. E eu que pensava que tinha passado grandes dificuldades em minha vida…   

Caminhamos por algumas vielas, descemos alguns pequenos barrancos, atravessamos um riacho pulando sobre algumas pedras; riacho onde algumas pessoas caminhavam sem qualquer cerimônia; e onde, aparentemente, o esgoto é lançado. A Colibri caminhava com dificuldade por conta de uma cirurgia em um dos pés e vez ou outra pulava feito o Saci-Pererê. 

Para as pessoas que moram ali o anúncio da chuva deve ser uma grande preocupação. E neste período de furacões a vida deve lhes ser ainda mais difícil. No entanto, fomos recebidos com sorrisos muito acolhedores, com alegria. E taí um legado que aproxima ainda mais o povo brasileiro do haitiano. A alegria para nós é a nossa melhor arma. Pois ela nos permite enfrentar as dificuldades sem que a esperança se perca. É uma das nossas maiores riquezas e o que de melhor podemos oferecer de aprendizado para quem ainda não provou os frutos amargos de uma existência repleta de privações. 

E como sabiamente disse mestre Leopoldia em um trecho de uma das suas canções: 

 

“Quem tem, chora miséria

Mas quem não tem, é que sempre tem pra dá” 

 

E ainda que a casa seja pequenina e simples, ainda que ela não tenha cadeiras ou uma mesa a alegria das pessoas que moram nela não tem tamanho. E entregar-se para esta alegria é como tomar um banho de chuva e sentir o corpo e a alma fresca e renovada.

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Em fim, algumas linhas sobre a Saudade

Posted by flaviosaudade em 15/06/2009

 

Ao contrário do que a maior parte das pessoas acreditam, uma das maiores dificuldades de quem está trabalhando e/ou morando em outro país, longe da sua família não é a saudade. A saudade é uma coisa boa e está sempre nos trazendo boas recordações. Só é possível sentir saudade daquilo que foi bom, não é mesmo? Ou alguém consegue sentir saudade de algo que lhe tenha sido ruim? 

Neste sentido, acredito que a FALTA é que seja a coisa mais difícil de se lidar quando se está longe. Hoje a saudade veio novamente visitar-me. Trouxe consigo inúmeras recordações, imagens… risos, sorrisos e olhares; cheiros, gestos e vozes… Todos eles momentos que me proporcionaram muita felicidade. No entanto, é a falta, a impossibilidade de estar perto que faz apertar o peito, calar a voz, espantar o sono e lançar o olhar no vazio. 

A saudade é uma coisa boa. E por mais que na literatura ou na música a maior parte a receba com mágoa, rancor e a deseje ver longe, ou ainda que persista na tola idéia de matá-la, hoje penso que a saudade realmente é uma coisa boa, porém imcompreendida e sumariamente injustiçada. 

Quando Tom Jobim canta “chega de saudade”, ou quando Dalva de Oliveira diz que ela é “um doce bem que nos tortura e ao coração maltrata com doçura”, ou quando a Nara diz ser a saudade uma “palavra triste”, ou ainda quando Gil diz ser a saudade um “triste resto de esperança” uma “amarga lembrança” , e isso para citar apenas alguns poucos exemplos, nada mais é que a tristeza, a melancolia pela falta. Todos eles aí, ao meu ver, fazem o mensageiro pagar pela mensagem. 

Por esta razão, mais do que nunca acredito que a saudade é boa pra quem sabe sentir. E por isso mesmo venho me esmerando para saber sentir saudade. Não é nada fácil, e devo dizer que apesar de me esforçar ao máximo ainda estou longe de realizar tal proeza.

Porém, de uma coisa estou certo: não desejo mesmo matar a saudade; saciar sim, mas matar, jamais.

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Gotas de Esperança

Posted by flaviosaudade em 14/06/2009

 

 Visita a Escolinha de Futebol da Petit Troll

 

 

Muitos já devem ter ouvido a história do Colibri que sozinho tenta apagar um incêndio na floresta. Enquanto todos animais corriam apavorados ele voava ligeiro, indo e voltando de um lago, derramando pequenas gotas de água nas chamas. Um leão, vendo suas idas e vindas lhe criticou dizendo que de nada adiantaria todo aquele esforço. Enquanto que o Colibri lhe respondeu que estava apenas fazendo a sua parte. 

Quantas vezes nos privamos de fazer o bem acreditando que não adiantará muita coisa? Que não podemos mudar o mundo? Quantas vezes pensamos que não existe solução para tantos problemas? Quantas vezes nos omitimos de estender a mão? Quantas pessoas preferem se fechar em uma casca e ignorar que no mundo existem pessoas que sequer tem o que comer ou beber? 

Indubitavelmente, todos fazemos parte da mesma seara, ou floresta, e colhemos o que plantamos. Se existem problemas, estou seguro, existem soluções. Soluções que muitas das vezes não precisam ser mirabolantes. Basta apenas acreditar, ir até o lago do coração, tomar algumas gotas e derramar nas chamas. Ainda que seja uma pequena gota, tenho certeza que fará grande diferença, principalmente para a semente que ainda está no solo esperando para nascer.  

E hoje pela manhã tive a alegria de ver mais algumas gotas que estão sendo derramadas sobre as labaredas que teimam em castigar o Haiti. À convite da Lone visitei a escolinha de Futebol da Petit Troll, nas imediações de Delma 33. Por um momento senti-me estar no Brasil, em um dos inúmeros campos de várzea. Muitas crianças; meninos e meninas uniformizadas treinando duro sob o sol quente. Faltou o samba e o churrasco para eu acreditar estar no meu país, mas não faltou a alegria…

 

 

 

 

Assim como a capoeira, o futebol também oferece muitas ferramentas para a educação. Durante os treinos, muito além de aprenderem a chutar ou conduzir bem uma bola, as crianças aprendem a trabalhar em equipe, a respeitar o próximo e, principalmente, a lidar com suas frustrações. Um desses momentos pude testemunhar enquanto observava o treino. Um dos meninos, chateado por não ter recebido o passe, saiu do campo e sentou. Pensei em ir até ele e dizer que deveria voltar, que deveria enfrentar a situação. Mas, não foi preciso. Após alguns segundos ele se levantou e voltou para o jogo. Ainda que pareça um fato normal, acredito que neste momento ele venceu um batalha. E tenho certeza que as possibilidades dele ter a mesma postura na vida, seja profissional ou pessoal, é muito grande.

 

 

  

Após o treino fomos almoçar na Petit Troll. Uma felicidade grande ver as crianças almoçando, satisfeitas, felizes… Alegria qe não tem tamanho. Quiça um dia poderemos ver essa mesma alegria em nossas crianças no projeto; após um dia de treino poder sentar e almoçar. Eu tenho um sonho….

 

 

 

   

 

 

E assim como na história do Colibri, as gotas não pararam por aí. Ainda pude visitar um casa construída pelos jovens do acampamento anterior (veja Apresentação na Petit Troll) que mudou a vida de uma família inteira.  Antes eles dividiam um pequeno cômodo de 2×2. Hoje eles contam com uma casa arejada, com quarto, sala, cozinha e banheiro; paredes brancas… A outra é a assistência que a Lone, e os jovens da Petit Troll estão oferecendo para uma menina chamada Kimberly que sofre de uma doença, ainda desconhecida, que pode cegá-la. Realmente, uma gota pode fazer muita diferença! Principalmente quando as chamas alcançam as cercas do seu quintal… 

Agradeço a Lone, agora Colibri, e aos seus amigos pelo convite, pelo carinho. Estejam certos de que para as crianças, para as pessoas que vocês ajudam esta pequenina gota é como um rio, que refresca, que ameniza as suas dores e os fazem crer em dias melhores. Ou que as pessoas podem ser melhores. Parabéns Colibri pela dedicação, esforço e por fazer do amor um exercício, pois esse é o exercício que verdadeiramente importa.

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Rosas e espinhos

Posted by flaviosaudade em 13/06/2009

 

As manifestações Estudantis

 

A vida nos reserva surpresas… Trabalhava em dois textos por alguns dias para postar aqui no blog. No primeiro, de título “Nacionalidade… Criança!”, refletia sobre este momento tão rico da existência humana e de como desejo manter viva esta essência em mim. O Segundo, “Um país pobre, ou um pobre país”, chamava mais uma vez a atenção para como as notícias sobre o Haiti já não correspondem mais à realidade hoje. E quando estava prestes a postá-los… recebi uma notícia de que algumas manifestações haviam irrompido em Porto Príncipe. Aliás, bem próximo de nós. 

A princípio pensei que a situação seria rapidamente resolvida e que tudo voltaria ao normal. Pelo menos o normal em se tratando de Haiti. No entanto tendo o problema tomado uma dimensão maior decidi esperar para um pouco mais para postar os textos, pois ambos por um momento me pareciam bem contrários a situação e [talvez] não coubesse falar de flores quando só o que se consegue ver são pedras pelo chão.   

Vamos a um breve relato da situação. 

 

Policiais em prontidão enquanto estudantes fazem manifestação

 

Estudantes universitários reinvidicam o aumento do salário mínimo, de 3 para 5 dólares/dia. Cassambas de lixo reviradas, pedras, pneus queimados, alguns carros e um posto de gasolina incendiados, estudantes presos, feridos, cocktail molotov, bombas de gás lacrimogêneo… É mais ou menos este o cenário até o momento. Com apenas um agravante: segundo soube, entre os universitários parece que haver pessoas que não são estudantes e que aproveitam a situação de instabilidade para cometer crimes, como furtos ou mesmo para fazer desordem. 

 

 

Acredito que tais manifestações tenham fundo político; senão de todo, pelo menos parte. Não é a primeira vez na história em que se aproveita uma ocasião como esta para desestabilizar governos. [principalmente quando não estão tão estabilizados…] Neste sentido, é difícil precisar quando a situação será normalizada. Enquanto isso não acontece, lutamos para conseguir dar continuidade às nossas aulas em Bel-Air, que até o momento não oferece risco de manifestações, é bom que se saiba. Entramos e saímos em ruas tentando evitar as áreas de conflito e os congestionamentos. Nem sempre é possível, e algumas vezes damos de cara com manifestantes. Damos meia volta e procuramos algum caminho alternativo. 

Por fim, cheguei a conclusão que manifestações ou qualquer tipo de problemas não irão fazer com que eu deixe de acreditar que as coisas estão e serão melhores. Que embora hajam pessoas que optem por promover a desordem e o caos, também existem aqueles que escolhem trabalhar pelo diálogo e pelo entendimento. Que apesar de ainda não conseguir ver as flores, tenho certeza que elas serão uma realidade um dia, cedo ou tarde; apesar das pedras que teimam em retardar o seu nascimento. E é por esta mesma razão, por não abrir mão de cultivar a esperança, uma das flores mais belas dentre tantas outras, que não deixei de postar os outros dois textos, que seguem logo abaixo.

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Nacionalidade… Criança!

Posted by flaviosaudade em 13/06/2009

 

Uma questão feita por um dos pais durante a reunião chamou-me a atenção e mereceu uma reflexão mais demorada: Como lidamos com a desordem que as crianças promovem?  Respondi que aproveitamos as oportunidades para ensinar, os problemas principalmente. E reforcei dizendo que criança é criança em qualquer lugar. Ela quer descobrir o mundo, não pára um segundo… Nós é que teimamos em lhe impor nossos limites dizendo o que devem ou não fazer. Eles entenderam a nossa metodologia, mas fiquei por muitos dias com este tema na cabeça. Hoje, ouvindo o cricrilar dos grilos lá for a, resolvi escrever algumas linhas sobre. Vamos a elas.

 

*          *          * 

Será que é possível dizer que criança é criança em qualquer parte do mundo? Posso estar errado, mas me arrisco em afirmar que sim. Criança gosta do novo, gosta de explorar e não aceita limites. Está em processo de conhecer o seu corpo e o mundo e por esta razão não pára um só minuto; corre, pula, brinca, pergunta, chora quando não consegue aquilo que quer… Para ela as diferenças… Ah! Que diferenças?! Isso não existe! 

Como pai (Sim, tenho uma filha linda e inteligente, não me canso de dizer), posso verificar isso muito bem. Para a criança lhe basta ser criança. E olha que esta não é uma tarefa lá muito fácil. Nós adultos, tomados pela correria do dia-a-dia, teimamos em coibir a criança de ser criança. Estamos sempre dizendo que isso não pode, que não é assim que se faz… Lembro-me bem, na realidade não me lembro mesmo, quantas foram as vezes que disse não para a minha filha. Hoje vejo o quanto devo ter rabiscado o mundo que ela está colorindo aos poucos… E apesar de sentir uma tristeza aguda no meu peito, talvez pela saudade que não me larga, estou feliz por acordar para esta realidade. E desejo, do mais profundo do meu ser, ser tão criança quanto me for possível. 

Assim, desejo ver o mundo com pureza suficiente que seja possível enxergar o bem que cada um carrega em si (e sempre carrega) e seguir acreditando que ele pode ser maior do que tudo. Ser tão estranho à tudo que me permita ser curioso o suficiente para descobrir e tornar novo o que já foi descoberto. Para acreditar que a felicidade é, e sempre será maior, embora lágrimas rolem no meu rosto vez ou outra, apesar de nos oferecerem tantas razões para desacreditar das pessoas.

Acredito. Eu acredito mesmo que a esperança desconhece a razão e confesso que não possuo razão alguma quando sonho. Me esmero ainda em catar estrelas pelo céu e seguir confiando que o perdão é uma das coisas mais sensatas para quem deseja viver em paz, pois o ódio e o ressentimento pesam n’alma mais do que qualquer outra coisa. Que podemos receber as maiores lições de vida em um parquinho repleto de crianças que uma delas pode ser tão sábia quanto qualquer sábio. 

Por fim, quero somente oferecer para as minhas crianças, para a minha filha, somente o que elas necessitam para não deixar nunca esvaecer esta magia que elas carregam dentro de si, neste que é um dos períodos mais prósperos e criativos para o ser humano.

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Um país pobre, ou um pobre país?

Posted by flaviosaudade em 11/06/2009

 

 

 

Quando era criança um dos meus passa-tempos era o de colocar o par de óculos da minha avó. Um daqueles de lentes grossas e amareladas. Lembro bem que enxergava tudo distorcido e quase sempre tropeçava em alguma coisa que não conseguia ver, mesmo estando à um palmo do meu nariz. A brincadeira não demorava pois a vista cansava ou a cabeça doía. Mas, como qualquer criança, teimava em voltar àquela brincadeira vez ou outra. 

Também é assim a visão que a maior parte das pessoas tem do Haiti. Uma visão tão distorcida quanto a que eu tinha ao usar os óculos de fundo de garrafa da minha avó. Que aliás já foram aposentados por outros mais novos. Até porque, quem pára no tempo é relógio quebrado. 

As escassas notícias sobre o Haiti, efetivamente, não refletem mais a realidade deste país caribenho. Claro, ainda persiste a instabilidade política e boa parte da população vive em condições degradantes, violentadas em seus direitos mais fundamentais para uma existência digna. No entanto, no fator segurança os índices de criminalidade estão muito abaixo das capitais brasileiras, como o Rio de Janeiro, por exemplo. E enquanto áreas como Bel-Air e Cité-Soleid são consideradas zonas vermelhas, ou seja, de alto risco, cidades como Rio de Janeiro, que apresentam índices de violência imcomparavelmente mais altos, nem sequer cor tem. No caso do vermelho, salvo algumas áreas, nem poderia… 

Outra imagem turva que muitas pessoas tem é a de que não é mais necessária a presença da MINUSTAH no país. Sem sombra de dúvida, a estabilidade e a segurança que temos hoje se dá boa parte pela atividade das tropas. Não fosse isso, temo ser impossível a presença de organizações internacionais, mesmo as de carater social no país. E para ter uma pequena idéia de como a realidade aqui é bem outra basta caminharmos alguns minutos pelas ruas. Logo é possível se surpreender com a quantidade de carros importados, inúmeras caminhonetes que circulam pelas ruas. Um amante de carros pensaria estar num pequeno pedaço do paraíso. E olha que não costumo caminhar nas áreas da classe média/alta. Por lá já ouvi dizer que é possível ver até limousines… 

Como imagens falam mais que palavras, que cada um tire as suas conclusões. Ficarei devendo mais algumas fotos, mas creio que estas já dá para se ter uma boa idéia.

 

 

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I Reunião de Mães e Pais do Gingando pela Paz

Posted by flaviosaudade em 09/06/2009

 

 

 

No último sábado, 30, realizamos a nossa primeira reunião de pais e responsáveis do Gingando pela Paz. A reunião aconteceu em Kay-Nou e contou com cerca de 60 pessoas. Foi um momento muito especial; os alunos vinham acompanhando os seus pais e faziam questão de nos aprensentar. A maior parte ainda não tinham estado conosco, mesmo pais de alunos que já frequentam as aulas a meses. Muitos de nossos alunos, pelo que soubemos, antes de iniciar no projeto ficavam pelas ruas durante o dia inteiro e seus pais sequer sabiam o que faziam. 

Na hora marcada, pouquíssimas pessoas haviam chegado. O que me deixou bastante apreensivo e com um leve sentimento de decepção, pois esta seria a oportunidade em que muitos deles iriam conhecer o projeto e a capoeira, principalmente. No entanto, logo outros pais começaram a chegar e não demorou para a sala ficar cheia.

 

 

Inciamos falando sobre a missão do Viva Rio no Haiti, sobre a Capoeira e de como ela pode ser últil para a educação dos seus filhos, e sobre a proposta do Gingando pela Paz. Os pais demontraram muito interesse pelo projeto, principalmente sobre o comportamento das crianças. Explicamos a nossa metodologia de trabalho e como utilizamos a capoeira e as oportunidades, os problemas, inclusive, para o ensino.

 

 

 

 

Algumas perguntas interessantes foram feitas. Dentre elas: se os alunos iriam receber algum certificado no curso; por que reuníamos meninos e meninas na mesma aula; se o projeto tinha alguma conotação política; se o projeto era da MINUSTAH… Após responder a todas as perguntas, falamos diretamente a cada um dos pais. Convocamos todos para participarem da construção do projeto, não apenas como pais e responsáveis, mas como membros da família Gingando pela Paz. Procuramos deixar bem claro que a participação deles é essencial para o sucesso do projeto, principalmente no que se refere na observação do comportamento da criança em casa e na escola. Por fim, os convidamos a divulgar o projeto entre as pessoas para que todos saibam o que vem a ser a capoeira e, principalmente para que elas compreendam que nosso objetivo é de compartilhar nossas culturas para o bem de todos. E tenho certeza que, juntamente aos nossos alunos, eles serão os maiores propagadores do projeto.

 

 

 

 

Dois momentos marcaram o encontro: o primeiro, que fez irromper risadas em todos, foi quando um dos pais disse que as crianças não fazem outra coisa pelas ruas de Bel-Air senão movimentos de capoeira. Foi uma felicidade muito grande, pois isso mostra que a semente que plantamos já brotou e está se espalhando por outras paragens. E não tarda para a capoeira se tornar um fenômeno neste país. Quiça o Haiti se tornar o maior pólo da capoeiragem, após o Brasil, claro. O segundo, foi quando passamos vídeos de algumas de nossas apresentações. Um olhar brilhava, um sorriso brotava cada vez que um pai identificava o seu filho nas imagens… Não há palavras neste mundo que possam registrar este momento. Quem sabe as teremos um dia.. Mas, neste momento, elas não são deste mundo.

 

 

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