Gingando pela Paz no Haiti

Relatos de um capoeirista em terras haitianas

Archive for abril \30\UTC 2009

Pastinha também veio ao Haiti

Posted by flaviosaudade em 30/04/2009

 

 

No ano em que Mestre Pastinha completaria 120 anos o Gingando pela Paz presta a sua homenagem. No último sábado, 27, foi realizada a exibição do filme: Pastinha. Uma Vida pela Capoeira, do diretor Toninho Muricy, quem tive o prazer de conhecer dias antes de rotrnar ao Haiti. A exibição contou mais uma vez com o apoio do Centro Cultural de Estudos Brasileiros Celso Ortega Terra, o CEB.

 

Sala lotada, olhares atentos e o berimbau anunciou a chegada do grande mestre, que com a sua fala mansa, pausada, e no alto da sua sapiência encantou a todos. Claro, esta é uma inferência pessoal, mas falo daquilo que pude ler no semblante das pessoas. No entanto, não tenho dúvida de que a sua história de vida, a sua luta e dedicação toca o coração de qualquer pessoa. A sua entrega e o seu amor pela arte da capoeira, a sua nobreza de espírito e dignidade humana não passa desapercebido, mesmo pelos olhos e corações menos atentos.

 

 

 

 

 

Estavam presentes, além de 50 alunos do projeto, convidados e alunos dos cursos oferecidos pelo CEB e o secretário executivo do Viva Rio, Rubem Cesar Fernandes. Além deles,  tivemos a participação especial da capoeirista Fatou Diawara, aluna da professora Marcia que leciona em Abidjan, África.

 

 

 

 

 

Uma vez mais agradecemos o carinho e a dedicação do CEB, aos amigos Zé Renato e Normélia, que também marcaram presença, e que desempenham belo trabalho na promoção do diálogo entre as culturas hatiana e brasileira. E que oportunizam pessoas de diversas nacionalidades a conhecer um pouco mais da Terra-brasilis, da sua gente e da sua arte.

 

 

 

Vicente Ferreira Pastinha: Um dos grandes pensadores da humanidade

 

 

Pastinha foi um dos grandes pensadores da humanidade. E ainda que com menor repercursão, pelo menos por enquanto – haja vista a disseminação da nossa arte pelo mundo – deixou uma importante contribuição para a evolução da humanidade. Para além da esfera física, conseguia refletir como poucos o papel da capoeira. Visionário, do alto de sua sapiência e simplicidade magistral, nos ajudou (e permanece ajudando) a compreender que devemos olhar para dentro para seguirmos adiante. Dizia que “a capoeira é para evoluir o espírito”. E no meu entendimento, que não cessa de tentar entender, o espírito, neste caso, é a nossa própria humanidade. Essa sua frase sempre me inspirou muito e serve de norte para  o desenvolvimento das atividades do projeto Gingando pela Paz. Muito embora eu me deixe derrubar pela distração às vezes, suas observações acompanham-me sempre. Seus manuscritos são como uma bússola para quem deseja basear-se nos fundamentos e tradições da capoeira. Infelizmente, vemos por aí muita gente à margem de suas lições, agindo de maneira totalmente arbitrária e irresponsável. Porém, como também disse o mestre “a capoeira é tudo que a boca come”, por tanto, serve ao ser humano seja qual for a sua necessidade. Assim, cada um come aquilo que deseja para si. No entanto, os tempos são outros assim como as mentes, ou espíritos. E ainda que nos demoremos em repetir alguns erros as folhas secas não tardam à cair para que venham as novas. A evolução é um processo inexorável e não há nada nem ninguém que possa impedi-lo, ainda que empenhe todos os seus esforços e ferramentas, pois a evolução está acontecendo nos quatro cantos da terra.

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“Avisa mamãe, capoeira mandou lhe chamar”

Posted by flaviosaudade em 26/04/2009

 

Inscrições para uma nova turma

 

Inscrições

 

Desde que iniciamos as atividades do Gingando pela Paz, em novembro do ano passado, o número de visitas não parou de crescer. Crianças, jovens, homens e mulheres que chegaram trazidos pelo boca-a-boca e passaram a acompanhar as aulas. Tendo em vista a grande procura e a diversidade de idade decidimos por abrir uma nova turma. Ampliando a oportunidade para mais pessoas e direcionando melhor o conteúdo.

 

Neste primeiro momento seriam feitas apenas inscrições para alunos já participantes do projeto. No entanto a notícia se espalhou e a atividade superou as nossas expectativas. Na verdade tomamos um grande susto com o número de pessoas que nos esperavam. Inúmeras crianças, jovens, pais e mães. O susto veio acompanhado de uma grande alegria, pois era a primeira vez que conhecíamos a maior parte dos pais e responsáveis dos nossos alunos. A maior parte, pelo que parece, sequer sabe por onde andam e o que fazem os seus filhos durante todo o dia.

 

Após remanejarmos a atividade das inscrições, o que exigiu muito jogo de cintura e paciência de todos, falamos aos pais da felicidade e da importância de tê-los conosco. Pude sentir uma boa receptividade, uma energia muito boa. Ao final fizemos uma bela roda onde nossos alunos puderam demonstrar o resultado daquilo que estão aprendendo.

 

Realmente uma felicidade indescritível!

 

pais e responsáveis

 

 

 

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Salve Jorge!

Posted by flaviosaudade em 26/04/2009

 

 

Dia 23 foi um dia especial para muitos brasileiros, dia de São Jorge, ou Ogum. Reza a lenda que Jorge nasceu na Capadócia, atual Turquia, por volta do ano de 280, no final do século III D.C. Após a morte do pai mudou-se com a mãe para a Palestina onde foi promovido a capitão do exército romano. Pela sua habilidade e coragem aos 23 anos recebeu o título de conde pelo Imperador. Com a perseguição desferida pelo imperador contra ao povo cristão, Jorge recusou negar a sua fé e fora submetido as mais diversas torturas. Vencedor de todas elas, arrebanhou inúmeros fiéis e hoje é cultuado pela Igreja Católica, no Candomblé e na Umbanda. Santo dos mais populares, é reconhecido como um emissário de Deus na luta pelos excluídos e marginalisados. Padroeiro da Inglaterra, de Portugal, da Catalunha, dos soldados e escoteiros já foi tema de canções de diversos cantores como Jorge Ben Jor, Caetano Veloso e Fernanda Abreu. Para mim ele é uma inspiração para a luta constante que devemos travar com o dragão que existe em cada um de nós.

 

E não é só no Brasil que o santo arrebanha fiéis. Saint Jeorge ou Ogou, como é conhecido no Vodu, também possui muitos seguidores neste país do caribenho. Aqui a sua festa é no mês que vem e os rituais são quase os mesmos: ir a igreja ou aos centros, acender velas, pedidos de prosperidade financeira; não fosse uma pequena diferença. Alguns haitianos se dirigem a estes locais com o intuito de receber números das loterias, que se forem oferecidos pela entidade, podem ser entregues na hora ou em sonhos. E por conta da forte presença da igreja católica, assim como no Brasil muitas pessoas acreditam ser o Orixá o próprio diabo, assim como a prática do vodou. Certa vez vestia uma camisa com a imagem do santo e um dos alunos apontava dizendo que era “el diablo”. Guardei a oportunidade.

 

E em nossa última aula, dedicada aos cânticos e ao diálogo, enquanto falávamos sobre a História do Brasil e do Haiti,  usamos a história do santo para ilustrar a importância de nos tornarmos heróis das nossas próprias histórias. Falamos, principalmente, da necessidade de dominarmos o dragão que carregamos para nos tornar pessoas melhores, bem como da importância de refletirmos sempre e de não aceitarmos tudo que nos dizem como a verdade absoluta.

 

Admirador do Santo Guerreio, como os amigos puderam perceber, longe dos dogmas religiosos, faço votos que a história tenha oportunizado a reflexão e que eles realmente se percebam como heróis, pois o são, verdadeiramente.

 

Salve Jorge! Salve Ogum!

 

 

Oração a São Jorge

Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal.

Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar.

Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meu inimigos.

Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós. Assim seja com o poder de Deus, de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo.

São Jorge Rogai por Nós.

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Aprendendo a lidar com as emoções

Posted by flaviosaudade em 23/04/2009

 

Uma das valências da capoeira é oportunizar o contato e o controle das emoções. Assim como o aprendizado dos golpes e movimentos, este processo exige disciplina, dedicação e treino constante. E a roda é o ambiente onde isso ocorre com mais intensidade. Durante o jogo, em diversos momentos, o capoeirista é incitado a dominar as suas emoções. Desde a insegurança de entrar na roda e de ser percebido pelos outros até a necessidade de controlar o ímpeto de  atacar após ter levado um golpe.

 

Dois momentos específicos podem exemplificar bem isso. Com as eleições me demorei um pouco para escrever sôbre, mas o momento ofereceu uma oportunidade tão especial de aprendizado que não poderia deixar de compartilhar com os amigos.

 

Os dois aconteceram durante nossas rodas. O primeiro foi breve, mas bastante significativo. Estava no berimbau acompanhando o jogo de dois de nossos alunos; jovens com idade média de 15 anos. Um deles aplicou um golpe que acertou de raspão o rosto do outro. Pude perceber claramente no seu semblante o momento em que suas emoções irromperam. De início foi tomado pela raiva, que por pouco não o levou a deixar a capoeira de lado e agredir o seu companheiro. Porém, ele conseguiu controlar o sentimento e retomar a ginga. Ao final do jogo os dois se cumprimentaram e o jogo seguiu.

 

O segundo exigiu maior atenção. Ao receber o golpe o aluno, de 17 anos, saiu da roda muito contrariado. Deixei o berimbau para dar-lhe atenção. Enquanto as lágrimas corriam expliquei-lhe – dentre outras coisas, da necessidade da esquiva – que ele já havia aprendido, e, principalmente, que a sua amiga não tinha intensão em agredi-lo. Que a queda, além de fazer parte do aprendizado, é essencial para o amadurecimento do capoeirista. Aos poucos as lágrimas cessaram e logo ele estava de volta ao jogo.

 

Nestes exemplos, o que mais me deixou feliz foi saber que, fosse em outra época o desfecho de ambos os casos seria bem diferente. Antes a resposta a qualquer contrariedade era a violência. O diálogo era quase inesistente e permeado quase sempre de agressões verbais e juras de vingança.  Hoje, após alguns meses de trabalho e de muito diálogo a história começa a mudar. E para a felicidade de todos, para melhor.

 

 

 

 

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Fim das Eleições. E os resultados?

Posted by flaviosaudade em 22/04/2009

 

 

Passadas as eleições, tudo parece voltar para a normalidade: as escolas retomam as suas atividades; as pessoas voltam a transitar pelas ruas. retomamos as aulas do projeto. Tudo parece caminhar bem, pelo menos até onde consegue alcançar o olhar de um curioso que se esforça em compreender esta cultura tão singular.

 

O saldo parece ter sido positivo, pelo menos no que se refere à segurança. Mas estas eleições demonstraram claramente a fragilidade em que se encontra o cenário político e o quanto o Haiti e sou povo têm de caminhar para vislumbrar a democracia, ainda que longe no horizonte. Para tentar entender um pouco melhor a situação sugiro a leitura do blog Ayitian Nuvels, de José Renato Batista. Em seu último post, intitulado “Fraude Eleitoral”, ou a minha experiência como Observador Internacional, ele fornece informações importantes sobre a situação política e relata ainda a sua experiência como Observador Internacional durante as eleições. Vale a leitura. Pelo menos para compreender que a orientação de escrever o nome embaixo do pé, como mencionei no post anterior, valia apenas para os haitianos.

 

Por fim, as eleições para o senado no Haiti foi uma clara resposta do povo ao processo eleitoral e de como esta eleição em particular se deu. O saldo: ruas e urnas quase vazias. Acostumado com as eleições no Brasil: “Programa Eleitoreiro Gratuito”; multidão de pessoas nas ruas distribuindo os sorrisos numerados; cartinhas parabenizando-me pelo meu aniversário, ainda que não seja; a “Lei seca” brindada a muita cerveja; ruas forradas de papel e postes poluídos de cartazes… Realmente, senti uma diferença e tanto.

  

 

“Emprenhar a Urna”: As Eleições no Brasil de outras épocas

 

Houve época em que as eleições no Brasil não eram tão civilizadas e que a democracia era um conceito ainda muito distante. O voto era direito de poucos e mesmo às mulheres era proibido o exercício. O momento era permeado de conflitos e arruaças promovidas por grupos de capoeiras que agiam em serviço para políticos. O número de votantes era reduzido e a violência e a intimidação garantia a fidelidade partidária.

 

Contexto que levou Machado de Assis a afirmar que “não há discurso, há recado; pede-se o voto ao ouvido, na esquina, ao voltarete, no bonde, à porta de uma loja. Às vezes pede-se ao mesmo tempo o fogo e o voto”. Urnas eram emprenhadas – recebendo maços de cédulas no momento da baderna – ou destruídas, quando sabia-se que o resultado desfavorecia este ou aquele candidato. O voto era feito de “cara limpa” sob o olhar atento e desconfiado dos valentões.

 

Hoje, o que era direito de poucos passou à obrigação de muitos. Ao meu ver camuflada de um exercício de cidadania. Não que eu não acredite na força do voto como ferramenta para o desenvolvimento e melhoria de uma nação ou situação, mas a obrigatoriedade no meu entender conflita fere este mesmo direito em sua natureza, bem como empobrece o próprio processo. Em fim, como ontem, hoje persistem práticas antigas como o “cabo eleitoral”, a troca de favores e a contratação de pessoal com recursos secretos (já não mais tão secretos assim…). Outras, como a intimidação e a ameaça, ameaçam ressurgir com a aparição  de novos atores que, portando armas bem diferentes dos “cacetes” e  as navalhas dos capoeiristas poem em risco a legitimidade do processo e a segurança dos eleitores.

 

De minha parte, em se tratando de política e de políticos, principalmente, tenho lá as minhas reservas. Particularmente, acredito que a política, a partidária, é como uma dimensão fantasma onde os vícios humanos se condensam, tomam forma e se travestem à moda da conveniência. Criam-se direitas, esquerdas e cambaleante tenta-se caminhar para a frente. Quanto a democracia, creio que nós brasileiros já conseguimos avistá-la no horizonte, basta seguirmos adiante ou, como nossos irmãos hatianos, mandar o nosso recado a quem de direito, ou esquerdo, ou qualquer outra coisa que seja.

 

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Reta final para as eleições

Posted by flaviosaudade em 19/04/2009

 

A algumas horas das eleições o clima no Haiti é tenso. Podemos sentir o clima no ar e no comportamento das pessoas quando caminhamos pela rua esta tarde.

 

A “pickup” da PNH (Polícia Nacional do Haiti) passa devagar – coisa que não acontece em um dia comum – observando o movimento que parece ser maior do que em outros finais de semana. Um helicóptero sobrevoa vez ou outra o céu. Mais notícias de pequenos conflitos e rumores de outros.

 

É difícil saber o que realmente está se passando e como tudo irá transcorrer; conversamos com um, que nos orienta a não sair de casa;  perguntamos a outro, que nos diz para escrever nossos nomes embaixo do pé para facilitar a identificação, se algo vier a nos acontecer (e me esforço em acreditar que tenha sido uma brincadeira). Tentamos acompanhar as notícias na TV, pelo rádio. Nos certificamos que as portas e janelas estão bem fechadas à noite e… esperamos.

 

Até onde sabemos, diversas medidas já foram tomadas pelas autoridades para garantir a tranquilidade do pleito: a partir das 9 da noite de ontem (17) até a segunda-feira, nenhuma pessoa pode circular pelas ruas, com exeção dos eleitores, veículos oficiais ou privados – o primeiro e o último sujeito à revista; Manifestações estão proibidas, assim como o consumo de bebida alcóolica e de cigarros. Políciais já estão a postos em torno do Palácio do Governo e o presidente, provavelmente, já acompanha as notícias em segurança na vizinha República Dominicana.  

 

Providências tomadas, resta-nos torcer para que tudo termine bem, tranquila como a noite lá fora que, acompanhada do cricrilar initerrupto dos grilos teima em trazer para perto nós a saudade das coisas da nossa terra.   

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A infância no Haiti: escravidão, violência, abandono… Esperança

Posted by flaviosaudade em 17/04/2009

 

Desnutrição: um grave problema da infância

Desnutrição: um grave problema da infância

 

A situação da criança haitiana é extremamente preocupante. Ela é obrigada a conviver com inúmeros problemas: má nutrição, falta de acesso à saúde, à educação básica, a violência doméstica e sexual. Em conversa com  um haitiano disse-me ele algo que me deixou bastante intrigado. Em seu português ainda tropeçante dizia que o haitiano tem a cultura de que ainda “está escravo”. E pelo que parece, esse pensamento é utilizado para legitimar a violência e maus tratos contra a criança, principalmente.

 

Entre as primeiras postagens no blog já havia falado sobre o assunto. A criança haitiana, resguardadas as devidas excessões, vive sob constante jugo e que as escolas ainda convivem com práticas disciplinares ortodoxas. Mas, após esta conversa, senti necessidade de me aprofundar mais no tema; conhecer não somente o perfil das crianças com as quais trabalhamos, crianças soldados, mas a situação da infância de uma forma geral. E durante a busca tive acesso a uma pesquisa sobre os “Restavecs”, de Raíssa Maria Londero pesquisadora do projeto Brasil-Haiti: um novo olhar sobre um novo Haiti.

 

Os Restavecs, termo em francês que quer dizer “ficar com”, são crianças que vivem sob regime de escravidão após serem doadas por seus pais para famílias urbanas. Na esperança de melhores condições de vida, ao invés disso são obrigadas a intenso trabalho forçado e a inúmeros maus tratos. Segundo a pesquisadora, no caso de meninas a situação torna-se ainda pior pois também envolve a exploração sexual; cabendo a elas, inclusive, a iniciação sexual dos filhos legítimos dos seus senhores. E quanto mais nova melhor, pois menor é o risco de que elas sejam portadoras do HIV.  Essas meninas são chamadas “la pour cá” que significa “aqui para isso”.

 

Ainda segundo a pesquisa, um relatório da ONU de 2006, sob o título “Infância em perigo: Haiti”, aponta que cerca de 300 mil crianças estejam vivendo neste sistema. E que o governo haitiano atribui o problema a cultura, originada nas práticas coloniais oriundas da cultura africana. Enquanto isso os restavecs vivem em condições miseráveis e sem quaisquer perspectiva de futuro.

 

A pesquisadora encerra chamando a atenção para a ineficiência de qualquer estudo ou programa caso não seja dada a devida atenção para o problema dos restavecs. Diz ainda, muito acertadamente que “o ideal de justiça não é possível de ser estabelecido em um Estado onde a escravidão infantil está arraigada, e consentida”. Por tanto, é urgente que seja incluída no conjunto de ações para a estabilização ações que combatam e ponham fim nesta prática desumanda e cruel. Como acredito seja necessário também uma reforma educacional dirigida aos educadores e educandos, baseada em uma metodologia de diálogo, respeito e entendimento. Pois do contrário, qualquer ação será mera medida paliativa que não se estabelecerá por muito tempo.

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Eleições: uma ameaça para a estabilização e a segurança no Haiti

Posted by flaviosaudade em 17/04/2009

 

Para quem vive em um país onde não há guerras ou conflitos generalizados é díficil imaginar que, da noite para o dia, tudo pode transformar-se em um campo de batalha. Porém, esta é uma possibilidade com a qual estamos aprendendo a lidar nestes últimos dias.  

 

No próximo domingo, 19, serão realizadas as eleições para o senado, momento delicado que vem anunciando problemas há algum tempo. Meses atrás, ouvimos rumores de possíveis manifestações da população por conta da impugnação da candidatura ao senado de alguns candidatos do Lavalas, partido do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide, que fora deposto do cargo em fevereiro de 2004 sob acusação de violência política e corrupção. Segundo autoridades eleitorais as candidaturas não apresentaram as documentações exigidas e, por tanto, não foram aceitas. Ficamos sob estado de vigia, mas a manifestação, se ocorreu, não tomou grandes proporções.

 

Por conta da situação instável as escolas estão fechadas e fomos obrigados a suspender as nossas aulas até o desfecho das eleições, pois Kay-Nou, sede das ações do Viva Rio e das aulas do Gingando pela Paz, está situada em Bel Air, justamente em dos bairros onde está concentrada a maior parte dos problemas. Em nossa última aula, na quarta-feira, alguns dos alunos já nos avisavam sobre os problemas que estariam para ocorrer com as eleições e já traziam a notícia de que duas pessoas tinham sido mortas pela Polícia Nacional do Haiti (PNH) em Cité Soleil, que ao lado de Bel Air, por volta do ano de 2004, foi palco de intensos conflitos que lavaram de sangue as ruas, estigmatizando ambos os bairros e seus moradores.

 

As tropas brasileiras e de outros países já estão em alerta, realizando incursões pelas ruas. A PNH já está posicionada no Palácio do Governo e o presidente em exercício, Préval, pelo o que ouvimos dizer, parece estar de malas prontas para uma viagem, contrariando orientação da ONU.

 

Resta-nos aguardar e torcer para que tudo corra bem, que as eleições sejam realizadas de maneira pacífica e que o Haiti consiga dar mais um passo rumo à estabilização política para o fortalecimento do regime democrático. Desta forma, acredito, o povo começa a conscientizar-se da sua força e, principalmente, que o voto é a melhor arma para lutar pelos seus direitos.

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Gingando pela Paz no Festival de Aquin

Posted by flaviosaudade em 14/04/2009

 

 

À convite do Centro de Estudos Brasileiros Celso Ortega Terra, com apoio do Ministério das Relações Exteriores, o Gingando pela Paz  participou no ultimo sábado do Destination Aquin / Festival Caraïbéen de Musiques et Danses Traditionnelles. O festival reuniu durante quatro dias artistas de diversos países e contou com várias atrações. Além da capoeira, conferências, feira de artesanato, teatro de rua, ateliês de iniciação musical, transformaram a pequena vila num verdadeiro “mosaico de expressões artísticas”.

 

A equipe do Gingando pela Paz contou com 15 pessoas, dentre eles 11 alunos, que demonstraram muita maturidade ao se apresentarem em um palco para um grande público. A apresentação contou ainda com a participação especial de Zé Renato, diretor do CEB, que reforçou o refrão. Para nós foi uma alegria imensa a participação de nossos alunos em um evento desta magnetude. E tenho certeza que isto irá representar muito em suas vidas. Acostumados a serem hostilizados, naquele dia eles foram o centro das atencões, eles foram os artistas.

 

 

 

Ligeirinho Saudade e Nó-Cego

Ligeirinho Saudade e Nó-Cego

 

 

 

 

 

 

 

 

Para fechar a participação com chave de ouro, ou melhor, como cavaquinho e atabaque, a representação brasileira contou ainda com a participação especial dos músicos Lúcio Sanfilippo, Marcelo Mattos e Tomas Miranda, que fizeram todos cairem no samba.

 

 

 

Sobre Aquin

 

Aquin está situada ao sul do Haiti a 138 Km da Capital Porto-Príncipe. A vila de 70 mil habitantes era chamada de Yakino pelos indígenas, seus primeiros habitantes. Com a colonização todos foram extintos, iniciando logo em seguida o tráfico de negros para o trabalho escravo.

 

 

Mais informações sobre o festival:

 

www.destinationaquin.org

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Tap-Tap: Patrimônio Artístico e Cultural do Haiti

Posted by flaviosaudade em 10/04/2009

 

 

Diversas países no mundo possuem meios de transportes que se tornaram verdadeiros símbolos: a gôndola da Veneza; o Taxi de Nova Iorque; o Bondinho do Pão de Açucar e de Santa Teresa, do Rio de Janeiro; o ônibus de dois andares e o metrô de Londres; a bicicleta de Amsterdã; o Shinkansen, famoso trem-bala de Tóquio; entre outros.

 

No Haiti, mais expressivamente em Porto-Príncipe, tem o Tap-Tap, o principal meio de transporte do Haiti. Desfilando cores, imagens e símbolos são verdadeiras obras de arte e demonstram a enorme aptidão deste povo para o artesanato.

 

O Tap-Tap conta ainda com uma festa, a FATAH, Festa dos Artesões de Tap-Tap Haitianos, que em sua segunda edição fez parte do vigésimo aniversário da Associação dos Artesões de Ônibus Tap-Tap (APATAH). O evento nacional elegeu o ônibus mais bonito e limpo e aconteceu no Centro Cultural de Estudos Brasileiros Celso Ortega Terra.

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