Gingando pela Paz no Haiti

Relatos de um capoeirista em terras haitianas

Archive for janeiro \30\UTC 2010

Mais do que nunca, celebrando a vida!

Posted by flaviosaudade em 30/01/2010

 

O berimbau toca Iúna. Ele agradece por mais um dia, por mais um reencontro. Ele pede proteção e licença para celebrar. O céu anevoado se abre aos raios de sol; passarinhos param para escutar. Desde muito o seu lamento, seja de dor ou de alegria, seja pela noite ou pelo dia, faz a alma se animar. Ainda que com o sol ou a lua cheia, seja com núvens ou com as estrelas, sua melodia corre solta pelo ar.

 

E sob o comando do berimbau, acompanhado de atabaque e pandeiro, nossos alunos voltaram ao exercício da mandinga e da malícia. Ainda que não tenham chegado todos eles, os que aqui estão nos oferecem um valioso ensinamento de que, apesar de toda dificuldade, das piores agruras, devemos seguir acreditando.

 

 

Todos perderam as suas casas, que apesar de pequenas, eram seus lares. Todos perderam os seus pertences, que apesar de poucos, eram seus. Muitos perderam entes queridos, famílias inteiras; perderam a sua referência de vida, de existência. Porém, seguem firmes na ginga; ainda encontram forças para cantar, ainda encontram coragem para sorrir.

 

Antigos e novos, compartilhando conhecimento, descobrindo juntos, crescendo juntos. Juntos tornando mais presente a esperança e mais forte o sonho. 

 

O assistente Depoté conversando com uma criança

Em cada movimento, uma escolha, uma afirmação. Em cada ataque, cada defesa, a certeza de que tudo na vida é um “sim, sim, sim; não, não, não”. 

 

 

 

Este pequenos grandes heróis, que fazem ainda maior e dão sentido à capoeira, que nos ensinam que não há exercício mais dignificante e que nos torne mais fortes do que o exercício de amar.

Assistam alguns vídeos das nossas atividades neste novo ciclo.

Alecrim fala aos alunos novos o que é a capoeira, e o que é preciso fazer para aprender. “Precisa respeitar o seu mestre, não brigar”

Aula de ritmo com alunos novos. Samba Lê, Lê!

Aula de ritmo com alunos novos. Atividade que acorre pelas manhãs e atende crianças de Kay-nou.

Primeira aula no novo ciclo.

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Novos Sorrisos

Posted by flaviosaudade em 29/01/2010

 

Menino olha as tendas montadas em Kay-Nou

Kay-nou* hoje, definitivamente, é a casa de todos. Cerca de 1600 pessoas estão ocupando inúmeras barracas. Famílias inteiras, mulheres, homens, jovens e crianças. Compartilham o mesmo espaço, para pegar água, cozinhar, viver. Claro, essa já era uma realidade forte entre eles, porém hoje eles estão ainda mais juntos.

Aos poucos, vamos tentando dar continuidade às nossas atividades. Hoje, mais do que nunca, ações como tratamento e distribuição de água, construção de latrinas, colheta de lixo e limpeza, atendimento medico, são extremamente importantes. Somados a isso, o levantamento de informações da população que estão sendo atendidas, e o apoio aos grupos de risco, crianças, mulheres e feridos.

 

 

E é deste grupo que nos chegaram mais alunos, quase que triplicando o número pessoas; crianças das mais variadas faixas etárias, adolescentes e jovens. Novos sorrisos, novos olhares, novas esperanças. Uma energia contagiante que nos embala e protege.

 

 

Aos poucos, chegam mais e mais, de todas as partes, de todas as idades. Olhares que chegam curiosos, outros desconfiados; alguns se deixando embalar pelo som do berimbau sem qualquer cerimonia, outros resistindo um pouco ainda, alguns tantos carentes…

 

 

Aos poucos, a capoeira vai tecendo os laços de fraternidade e de comunhão; mentes que sonham, corações que vibram juntos, almas que celebram a dádiva de existir, a oportunidade da presenciar o grande espetáculo da vida, que apesar das provas, e de serem tão duras muitas das vezes, como diria gonzaquinha, continua sendo sempre desejada.

 

Viver e não ter a vergonha de ser feliz

Cantar e cantar e cantar

A beleza de ser um eterno aprendiz…

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Berimbau deu chamada. Capoeira respondeu: Estou pronto!

Posted by flaviosaudade em 29/01/2010

 

 

Quando o berimbau toca, o coração vibra; quando as vozes se lançam no espaço, faz com que se movimente o espírito. Berimbau faz a Paz e faz a guerra; uma guerra pela Paz. E este é o momento, para uma nova guerra; a guerra onde as armas são a esperança, a coragem, a fraternidade e a fé. 

E foi sob salva de palmas que eles foram recebidos, Aila e Ligeirinho, irmãos queridos, malungos* desta jornada terrena.Que vieram “Gingar pela Paz” pela paz há cerca de 8 meses. Sem sombra de dúvida, um ganho precioso para o projeto, para as crianças, principalmente. 

Fomos juntos para o Brasil, para passar as férias de final de ano, ansiosos para rever pessoas queridas. Por um esquecimento meu, deixei de comprar as nossas passagens de retorno ao Haiti. Vôos lotados! Previsão para o fim de janeiro somente. Ansiedade para voltar, desejo de permanecer mais alguns dias… Após muito esforço, consegui marcar a minha passagem, na véspera, para o dia 8. E os dois ficaram. 

Por fim, assistiram todos os acontecimentos de longe, com o coração na mão, não tenho dúvidas. Falávamos pela internet todos os dias. Estavam preocupados conosco, com os amigos, com as crianças. Devem ter sido dias muito difícieis para eles. 

E fim, chegaram. Fizeram sorrir àqueles que não paravam de perguntar por eles. Não havia um dia sequer sem que alguns perguntassem. “Quando Aíla vem?”. “Onde está o ligeiro?”. A minha resposta era a sempre que estavam vindo. Mas, particulamente, estava temeroso quanto a vinda deles. A situação era ainda muito tensa, o sentimento de insegurança era ainda maior. Não poderia mesmo pôr em risco a segurança deles. Por mais que eles desejassem ouvir o chamado, e estivessem prontos para isso, eu temia muito por eles. 

Porém, o coração falou mais alto e o chamado foi feito. Devo dizer que seguido de uma algria imensa dos dois. Assim que soube o Ligeiro prontamente disse: só estava esperando ouvir isso. A Aíla: já estou com as malas prontas! E chegaram trazendo uma forte energia, que me veio num momento em que eu estava pedindo por ela; uma energia que nos renovou e nos deu mais força e coragem para seguir em frente. 

Ligeirinho e Aíla reecontrando o Cambaxirra e a Carrapicho

 

Infelizmente, nem todos que gostariam de estar conosco puderam vir [ainda]. Trata-se do meu irmão Nó-Cego, e a Beija-Flor, que estiveram conosco poucos dias atrás, em nosso I Batizado. Momento que nos trouxe uma felicidade imensa, indescritível! Não posso esquecer de outra pessoa querida, que feito “louco” saiu da República Dominicana para o Haiti em compahia de um repórter, o nosso irmão Kazan, que também esteve aqui para o evento. E, claro, ao meu mestre, Marcos Wagner, que também esteve conosco para o evento, e que certamente passou dias e noites bastante apreensivo. 

 

Alecrim e Aíla

 

A estes, “loucos” sonhadores de um mundo melhor, Soldados da Paz, Guerreiros da Luz, rendo todo o meu respeito, carinho, amizade e fraterno amor. Sem sombra de dúvida, o que nos une é algo bem maior, assim como creio seja a nossa missão. Tenho fé que estamos juntos, e juntos ainda poderemos contribuir muito para o novo momento pelo qual passará a humanidade, através da nossa arte-capoeira. 

Peço a Deus que nos ilumine, inspirando os nossos corações às boas inspirações e que consigamos ser ferramentas para esta grande obra.

 

Alecrim, Aíla, Manteiga e Emília

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Os dias seguem. Pela noite, as estrelas no céu

Posted by flaviosaudade em 21/01/2010

21 de janeiro, 11:30 am

 

Os tremores hoje são como acontecimentos quase que naturais. Agora há pouco foram dois; o primeiro aparentemente forte. Estava em minha mesa imprimindo alguns documentos, e por um momento pensei que fosse a impressora. Mas, ao olhar para a mesa ao lado e ver um monitor balançando, compreendi que não era a impressora e sai rapidamente. Por fim, não sei se a terra realmente está tremendo ou se o meu corpo é que não parou de tremer desde o primeiro. 

No momento do tremor, a sensação é de que o cérebro automaticamente acessa as informações do primeiro, as lembranças chegam em uma fração de segundo. E com elas, o medo de que este seja tão forte quanto o primeiro, que alcançou 7.2 graus na escala Richter. E a diferença de força entre um e outro é bem grande; o de 7.2 chega a ser 22 vezes mais forte. Aparentemente, teremos de conviver por algum tempo com os tremores. Espero em Deus que não sejam tão fortes quanto o primeiro, pois isso iria ampliar os problemas para um grau que não podemos prever, como ainda não podemos prever a extensão das consequência do primeiro. 

Aos poucos, notamos que algumas pessoas estão deixando a capital, indo para as províncias, para as áreas rurais. O que abre precedente para tornar a ajuda mais rápida. Talvez seja possível, ao invéis de centralizar toda ajuda em Porto-Principe, criar campos de apoio nestas cidades, com toda estrutura possível, e remover as famílas que hoje ocupam as praças. Isso ampliaria também o campo de trabalho para a remoção dos escombros e resgate das vítimas, bem como diminuiria as possibilidades de uma epidemia, um risco grande aqui. 

Quanto a nós, seguimos com o trabalho, dentro das nossas limitações. Com o risco eminente, continuamos dormindo no quintal da casa; brasileiros, haitianos, noruegueses. Onde temos uma visão fantástica do céu, das estrelas. O sentimento em mim é de que não estamos sozinhos, nem desprotegidos. E parece que ouço uma voz dizer que tudo ficará bem.

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Haiti em uma palavra? Esperança

Posted by flaviosaudade em 21/01/2010

Quarta, 20 de janeiro, 6:00pm

 

 

Aos poucos, a situação parece apresentar sinais de melhoria, apesar de muitos escombros estarem ainda por serem removidos. O volume de trabalho é grande, bem maior do que a infra-estrutura disponível no momento. Mas, já podemos ver que a situação é bem diferente de alguns dias atrás. Não tenho dúvida de que as equipes de resgate estão empenhando ao máximo as suas forças para tornar o trabalho mais ágil, e minimizar ao máximo o sofrimento dos que ainda ainda esperam por ajuda sob os escombros. 

E ainda que existam aqueles que se valem da necessidade e da fome para promover a violência e o desespero, ferindo ainda mais a sua própria gente. 

Ainda que existam aqueles que poderiam ajudar [fazer a diferença], mas que preferem assistir tudo de longe, entre as quatro paredes da sua sala refrigerada, cujo a proximidade maior do problema não vai além do alcance do seu controle remoto ou do cursor do seu computador. 

Ainda que existam aqueles cruéis o bastante para de dizer que a raça ou o credo é o causador de tanto sofrimento… 

Existem aqueles que movem todos os seus recursos e esforços para garantir o mínimo de segurança e dignidade para aqueles que sobreviveram, para minimizar o sofrimento das pessoas e cuidar de suas feridas.

Existem aqueles que deixaram seu país, o conforto e a segurança do seu lar, o carinho da família para estar ao lado de pessoas que sequer conheciam.

 

Existem aqueles que são humanizados o suficiente para exergar no próximo o laço incontestável da família terrena.

 

Existem aqueles “loucos” que acreditam, seguem em frente, e com a sua loucura contagiante arrebanha multidões para o bem.

 

E é por esses e outros que a confiança aumenta a cada dia, que a nossa força cresce. É através de exemplos como esses que seguimos acreditando que a  vida é ainda mais forte do que qualquer coisa e que a esperança sobrevive às piores provações.

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E o Berimbau segue falando

Posted by flaviosaudade em 20/01/2010

Terça, 19 de janeiro, 20:30

 

 

 Hoje o dia foi bastante produtivo, iniciamos a identificação e a divisão das crianças por idade, para melhor direcionar as atividades. Utilizamos pulseiras coloridas, confeccionadas com tiras de garrafas plásticas. Começamos pela manhã com crianças da faixa etária de 7 aos 9 anos, identificadas com pulseiras de cor vermelha; contabilizamos 67.

 

 

 

Além de cantoria, ainda tivemos jogo de capoeira, saciando a vontade de muitos cachinguelês* que não se aguentavam mais de vontade de dar pernadas.

Geringonça, Alecrin e Chicote

Pela tarde, atendemos adolescentes de 10 aos 14 anos, identificados por pulseiras de corde verde. Chegamos ao número de 108. Um número que nos surpreendeu. Com isso, passamos a maior parte do tempo organizando a fila, listando os nomes, idades, colocando as pulseiras e, como era de se esperar, explicando aos pais e diversas pessoas que chegavam que não iríamos distribuir comida.

fila para atividade da tarde 2

Por fim, uma pequena multidão tomou quase todo espaço. E, tendo em vista o número de contigente, achamos por bem dividir ainda mais os grupos, para que possamos realizar um trabalho de qualidade, ainda que no improviso, e evitar confusão.

meninas para atividade da tarde

Apesar de todos necessitarem de atividades, e da grande maioria desejarem aprender a capoeira, tentaremos manter as atividades com os alunos antigos, de maneira a minimizar ao máximo o desenvolvimento do aprendizado. E, dentro do possível, e de nossas limitações físicas e de infra-estrutura, oferecer ensino também para estes que estão chegando agora que já fazem parte da família Gingando pela Paz.

(*) Como também é conhecida a criança na capoeira.

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A Arte pela Vida. A Vida pela Arte.

Posted by flaviosaudade em 19/01/2010

 

Segunda, 18 de janeiro, 5:30pm

 

Crianças caminham em Kay-nou

 

As crianças hoje estavam mais calmas quando cheguei, pelo menos não vieram todas se dependurar em mim. Assim que chegamos falei com algumas, encontrei outros, graças a Deus. Sempre um reecontro especial. Algumas estão habitando algumas praças do entorno e foram dizer que estavam bem. 

Assim que chegamos fomos tentar identificar algum local onde fosse possível realizar as nossas atividades. Em nosso antigo espaço, sem chance. Abaixo, pior ainda, pois apesar de as paredes terem permanecido de pé, diversas rachaduras comprometeram a estrutura do prédio. Lá for a, um sol quente, cada vez mais ao se aproximar ao meio-dia. 

Caminhamos um pouco até que resolvemos olhar as instalações na entrada de Kay-nou. Muitas no mesmo estado, oferecendo risco. Indo mais à frente, em fim, encontramos. É uma pequeno espaço, bem menor do que estávamos acostumados, é bem verdade, com sol a maior parte do tempo, mas é suficiente para oferecer alguma atividade com as crianças – que são muitas, devo dizer – e não oferece risco de desabamento. Nele haviam grandes sacos que era utilizados para recolhimento de lixo; muito sachês de água e garrafas. Logo, veio-me a idéia de realizar pequenos trabalhos com as crianças utilizando as garrafas; confecções de carrinho, cata-vento, aviões, em fim. 

Alunos confeccionando pulseiras

 

As garrafas também servirão para identificar as crianças. Pensávamos bastante em como iríamos organizar os grupos por faixa etária e conduzí-los em ordem até o espaço das atividades; em diversas formas de identificação e organização para envitar confusão, até que surgiu a idéia de confeccionar braceletes das garrafinhas. Mãos à obra, e no final da tarde já tíanhamos em torno de 700 braceletes. 

Com as atividades, esperamos minimizar a carga de estresse ao qual elas estão sendo submetidas e, através da arte e de suas inúmeras ferramentas, oferecer uma alternativa para que elas superem o trauma pelo qual passaram.

 A arte pela vida. A vida pela arte.

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Berimbau já fez chamada, já é hora de lutar…

Posted by flaviosaudade em 18/01/2010

Domingo, 17 de janeiro, 18:30

 

Hoje a alegria voltou a fazer morada no meu coração. Hoje, graças a Deus, pude ver o sorriso dos meu alunos, das minhas crianças. Pude abraça-las, beijá-las, olhá-las nos olhos. Após dias de ansiedade, fui até Kay-nou. E que felicidade foi reencontrá-las, ver aqueles olhinhos brilhando de felicidade. 

Ao passar pelas ruas de Bel-Air já ouvi o chamado de um deles: Iê capoeira!”. Era o Canário, que acenava, feliz, em meio a multidão. E mal cheguei a Kay-nou, logo fui rodeado de crianças. Elas surgiam em meio às tendas, inúmeras delas. Vinham gritando o meu nome, perguntando pelos outros, pela Aíla, Linheiro, Beija-Flor, Paollo (Nó Cego). Eufóricas seguravam em minhas mãos, abraçavam-me, beijavam-me o rosto. Por mais que escrevesse aqui, por mais que virasse a noite esmerando-me em frente ao computador, não conseguiria descrever o meu sentimento naquela hora. E nem tenho essa pretenção. 

Caminhamos para ver como estavam as coisas, para ver as pessoas. Eles acompanhavam-me, agarrando minhas mãos, meus braços. Enquanto caminhávamos mais apareciam e juntavam-se ao grupo. Quando percebi éramos uma pequena malta caminhando entre as barracas. Mães e pais vinham falar conosco, nos abraçar, saber dos outros. E chegavam mais e mais. E meu coração desejando que mais chegassem… 

Nos dirigimos ao espaço da capoeira. Paredes no chão e boa parte do telhado caído. Até pouco tempo aquele espaço estava colorido, florido de pessoas… Uma grande festa para o nosso primeiro batizado e entrega de cordas e para comemorar o nosso primeiro aniverário. Um ano juntos, de muita luta e suor. Porém, o sentimento foi de esperança, apesar dos inúmeros tijolos pelo chão. E apesar das paredes caídas, pude ver um grande horizonte pela frente. E isso me encheu de força e esperança. Esperança que se fortaleceu com as palavras de um Rubem emocionado: vamos construir um espaço ainda melhor! E eu tenho certeza que sim. 

Reunimos as crianças em uma roda. Bem, tentamos, pois haviam muitas crianças que não faziam [não faziam] parte do projeto. Conversamos bastante, elas muito atentas e cobrando atenção dos mais novos. Logo eles perguntaram se podiam vestir seus uniformes. E bastou ouvir um sim e saíram correndo para as barracas. Voltaram com uniforme. Claro, aqueles cuja a casa não havia desmoronado… 

Nos reunimos sob uma árvore. O berimbau rompeu o silêncio. A Inúna pediu licença e chorou as vítimas, aquelas que deixaram o jogo desta existência para habitar uma nova morada. Pediu luz para os que se foram, proteção e força para os que aqui ficaram. E em cântico celebramos o ontem, o hoje e o amanhã. Celebramos a dádiva de estarmos vivos e saudáveis. Naquele momento, éramos um. A dor de um era a dor de todos, assim como a alegria, a esperança e a fé. Cantamos, enquanto eles desejam jogar o jogo, dar pernada e ficar de pernas para o ar. Faltou-nos espaço, mas não para o nosso cantar, que percorreu todo espaço. Faltou-nos comida, mas não a força para as nossas palmas. Cantamos, jogamos bola, conversamos… 

Dos 150 alunos, 70 encontramos ou tivemos notícias. Alguns é possível que tenham ido para as províncias, para a área rual, ao perderem as suas casas ou em busca de melhores condições de sobrevivência. Uma das alunas ficou ferida, ainda não sabemos se grave. Mas, GRAÇAS A DEUS, nenhuma notícia de perdas. 

A imagem de muitos, muitos outros permanecem em nossa cabeça. E em nosso coração o forte desejo de reencontrá-los bem, com saúde, para que se juntem mais uma vez a nós nada roda, para que podemos seguir juntos Gingando pela Paz, pela Esperança, pela Vida, por um mundo, efetivamente, melhor.

Assiste a um vídeo das crianças do Gingando pela Paz após o terremoto

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O Capoeira Balança, mas não cai.

Posted by flaviosaudade em 17/01/2010

Sábado, dia 16 , 11:40

 

Foto oficial I Batizado e Entrega de Cordas

 

Mas, apesar de tudo que aconteceu, apesar de tudo a nossa volta parecer ter ruído; apesar de sequer ter notícias da maior parte dos meus, ainda posso ouvir suas vozes, ainda posso ver os seus olhares de alegria, de traquinagens… ainda posso ouvir o cântico acompanhando o berimbau; ainda posso sentir as palmas vibrando; ainda posso vê-los correndo para entrar na roda, agachando ao pé do berimbau e aguardando o momento de iniciar o jogo, felizes. Ainda posso ver a vitalidade e o ritmo dos seus corpos no jogo do maculelê ao som dos atabaques. 

Tantas imagens; tantas histórias. Seres humanos surpreendentes, ricos, riquíssimos! Posso dizer com a maior segurança deste e de outros mundos. Com eles, pode até haver dificuldades, mas não há pobreza. Pobres são aqueles que se lucram com a situação em que eles se encontram, que lhes cerceiam os direitos de viver com dignidade, que lhes tira o pão da boca e os impedem de sonhar. Com eles pode até haver dor e fome, mas há dignidade e carinho, fraternidade. E isso, terremoto algum, tragédia alguma poderá derrubar. 

O meu berimbau está em silencio, sim. Mas, ele há de falar novamente. Irá cantar para chorar as perdas, para agradecer estarmos vivos, para agradecer o tempo que estivemos juntos daqueles que, espero ansioso, não tenham nos deixado. 

E, acima de tudo, ele irá cantar a esperança e a força deste povo, a sua coragem e fé. Irá falar desses dias difícieis, de incertezas, para que aprendamos a valorizar este dom maior que nos fora dado: a vida. Para valorizar os momentos em que passamos uns com os outros, pois cada momento que passamos com o outro é um pouco de vida que oferecemos. 

Choramos hoje as perdas, a trajédia. Mas, logo chegará o dia de reconstruir tudo. E tudo será ainda mais belo. Eu tenho Fé!

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Sábado, 16 de janeiro. 11:50

Posted by flaviosaudade em 16/01/2010

 

É difícil, realmente, saber o que se esperar daqui para frente. O cenário, apesar da ajuda que começa a chegar, ainda é preocupante. Estamos concentrados na casa, aguardando a chegada do Rubem Cesar, coordenador executivo do Viva Rio. Ele vem da República Dominicana, acompanhado de uma equipe holandesa especializada em resgate, creio. Eles vêm trazendo mantimentos e equipamentos para ajudar no socorro às vítimas. 

Ontem recebemos a visita da embaixatriz Roseane Kippman. Elas nos deu mais informações sobre as decisões que estão sendo tomadas: Hospitais de campanha serão montados, serão construídos 3 cemitérios para enterrar os corpos; cada um deles será abençoado por um líder religioso, em respeito a crença das pessoas. A engenharia já está atuando no serviço dos escombros e das pessoas. O que me traz um alento. E que os EUA estão enviando dois navios/hospitais e cerca de 10.000 soldados. 

[tremeu um pouco mais forte] 

Apesar de todas as dificuldades, e de todo clima de incertezas, há esperança e solidariedade. Mas, o que podemos esperar se um novo tremor, a exemplo daquele que ouve vier? Claro, as pessoas não estão em suas casas, estão nas ruas. Porém, é realmente difícil dizer o que pode acontecer se o tremor se repetir. 

[ e mais outro, mais fraco] 

Não tivemos prejuízos, todos estamos bem. Vamos tentando seguir em frente. Tentando ajudar no que for possível. Claro, no momento, temos pouca estrutura para isso. Seguimos aguardando. O Rubem chega por volta das 3pm com a equipe da noruega. Chegam da República Dominicana em 7 carros.

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