Gingando pela Paz no Haiti

Relatos de um capoeirista em terras haitianas

Archive for 11 de fevereiro de 2009

Agogo Haiti

Posted by flaviosaudade em 11/02/2009

 

simbolo da resistência haitiana

Negro Marron: símbolo da resistência haitiana

 

Final de tarde. Um mar de gente em procisão. Expremem-se. Caminham. Na cabeça bem mais que mercadoria, vasilhames d’água. A pomba rôla entoa triste um cantar de desalento… E a escuridão que engole aos poucos a maior parte dos lares não esconde nem ameniza as dores.

 

A água pouca, a comida escassa. Corpos fatigados amontoam-se como que para se recuperarem dos açoites que não cessam. Quiça nos sonhos. Quiça os sonhos dos outros. Quiça ter sonho algum. Quiça esvaziar-se de si mesmo e esquecer tudo que foi. Quiça desejar somente o que poderá ser. E se for como ainda é, que não seja mais. A guerra está mais perto quanto mais distante a paz.

 

Onde estão os olhos os filhos dos filhos teus?

 

Em cada lar uma vela acesa. Ainda que fustigada e cambaleante permanece firme. Como a esperança que resiste ainda em cada um. Uma vida melhor. Onde seja possível encontrar a dignidade. Onde o sofrimento dê lugar a alegria. Onde os dias não sejam tão cruéis.

 

A vontade de viver é como um sentimento que não se aquieta, não se deixa dominar. N`alma a recordação ferrenha de um passado heróico. O horizonte conquistado através de lutas. Pedras e paus. O próprio corpo. Suor e sangue! Irmãos caídos. A esperança cada vez mais forte.

Do solo árido e pedregoso nasce a flor de novos dias. Mas ainda não é o fim da agonia. A mesma mão que assina a liberdade abençoa a servidão. Aquele que dividiu contigo as lágrimas vira-lhe as costas indiferente, pisa sobre o semblante macerado de sua gente.

Mas, o que ouço?

Ainda que ao longe e amiúde o rufar dos teus tambores. O teu canto esplendoroso volta a tomar força novamente. Faz acordar aos poucos a tua gente. Chega de mansinho. Um a um vem despertando. Cada qual ao acordar ouve: Você não está sonhando. E o corpo fala, geme e vibra a anciedade de todos os dias.

Agora é a vida que dança, brinca e bate palmas. A vida que canta, gira, pula, sorri e abraça, perdoa e ama. Que salta dos olhos para morar nos olhos do outro. Agora é olhar para frente. Agora é tirar do exílio todos os sonhos do seu povo.

 

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Brasil e Haiti: similaridades de hoje e de ontem

Posted by flaviosaudade em 11/02/2009

 

O Haiti lembra o Brasil em muitas coisas: o clima, o carnaval, a paixão pelo futebol, alguns costumes, problemas. Não é difícil caminhar pelas ruas de Porto Príncipe e nos deparar com alguma cena em que poderíamos dizer que estamos no Brasil. As ruas, o comércio, é como se um pedacinho da Terra Brasilis fosse transportado para o Haiti.

 

Engraxate 

Assim como os lugares, muitas personagens nos traz este mesmo sentimento. Uma delas é o engraxate, que está em grande número por aqui. Aproveitando-se do costume do hatiano de usar roupas sociais ele é figura bastante comum. 

 

 

A “Mulher Aguadeira” 

Outra personagem é a “mulher aguadeira” que, segundo uma pesquisa, vem das províncias do interior para trabalhar na entrega de água e reside em grupos nas casas dos “donos da água”. A sua vinda para a Capital se dá pelo fato de não ser bom para a imagem ir pessoalmente comprar água nos postos. Assim, para manter o “status”, aquele que pode pagar recebe a água em casa através dos seus serviços.  

 

O Sapateiro 

Além da aguadeira temos os sapateiro, que pode ser encontrado com maior facilidade próximo ao mercado. Com sua máquina, cercado de sapatos e couro por todos os lados, ele ocupa vários pontos das ruas e trabalha em ritmo de facção. Também podemos encontrar alguns deles trabalhando em suas casas; através das portas estreitas podemos assistir um calçado nascer de suas mãos exímias e calejadas, com a ajuda de suas pequenas máquinas de costura. 

 

O Vendedor de raspadinha 

Figura bastante conhecida em algumas cidades brasileiras, o vendedor de raspadinha também está presente por aqui. Empurrando o seu carrinho, com um enorme bloco de gelo, garrafas de suco e cercado de abelhas. O grande problema é a qualidade da água com o que é feito o gelo e o seu transporte; tanto um como o outro nada confiáveis. Para quem não tem costume, ou anti-corpos suficientes, o refresco pode antecipar dias de muito mal estar.

  

Oi, soca o café no pilão. Oi soca o café no pilão… (Saudade)

Em alguns momentos parece mesmo que entramos num túnel do tempo. Assim me senti quando estava a caminhar pelas ruas de Bel Air e me deparei com duas pessoas preparando café. O homem, parecendo sair dos livros de história, socava o pilão enquanto uma senhora parecia peneirar o pó de café. Um cherinho bom de saudade fez recordar as manhãs e as tardes em família no Brasil em que o café era acompanhado de boas conversas. Sem dúvida cenas como esta podem ser vistas nos rincões do Brasil, talvez em alguns quilombos, mas esta se deu em um centro urbano, o que certamente é uma peculiaridade. Assim como as lamparinas que ganham espaço ao cair da noite. 

 

Construções à caminho de Pationville

Construções à caminho de Pationville

 

Outra cena impressiona na familiaridade com o Brasil: as favelas. Elas ocupam uma boa área e estão espalhadas pelos morros da Capital e no caminho de bairros mais afastados como Pationville. Um trecho em especial lembra muito a Rodovia Grajaú-Jacarepaguá. Favelas de ambos os lados e a estrada cortando ao meio. A produção de tijolos aqui parece ser bem grande entre os moradores. No entanto, o material parece ser de baixa qualidade, e as construções, como no Brasil sem qualquer supervisão de um especialista. O que aumenta os riscos de desabamento, assim como ocorreu no ano passado com a escola em Pationville. 

Como os personagens, outras similaridades que podemos encontrar é a rinha de galo que, diferentemente do Brasil, segundo soube  mas ainda preciso confirmar, não é proibida. Em Bel Air, principalmente, é possível ver os galos com cordões presos a suas patas, ou mesmo em cima de bancas. Apaentemente todos eles preparados para a rinha.  

Além dos galos, também encontramos o jogo, não o do bicho, mas casas como loterias. Pela movimentação aqui, como no Brasil, as pessoas apostam muito na sorte. Ainda não temos um concurso grande como a Mega Sena, mas quem ponha fé, isso parece ter de sobra…  

 

 

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