Gingando pela Paz no Haiti

Relatos de um capoeirista em terras haitianas

Archive for 17 de abril de 2009

A infância no Haiti: escravidão, violência, abandono… Esperança

Posted by flaviosaudade em 17/04/2009

 

Desnutrição: um grave problema da infância

Desnutrição: um grave problema da infância

 

A situação da criança haitiana é extremamente preocupante. Ela é obrigada a conviver com inúmeros problemas: má nutrição, falta de acesso à saúde, à educação básica, a violência doméstica e sexual. Em conversa com  um haitiano disse-me ele algo que me deixou bastante intrigado. Em seu português ainda tropeçante dizia que o haitiano tem a cultura de que ainda “está escravo”. E pelo que parece, esse pensamento é utilizado para legitimar a violência e maus tratos contra a criança, principalmente.

 

Entre as primeiras postagens no blog já havia falado sobre o assunto. A criança haitiana, resguardadas as devidas excessões, vive sob constante jugo e que as escolas ainda convivem com práticas disciplinares ortodoxas. Mas, após esta conversa, senti necessidade de me aprofundar mais no tema; conhecer não somente o perfil das crianças com as quais trabalhamos, crianças soldados, mas a situação da infância de uma forma geral. E durante a busca tive acesso a uma pesquisa sobre os “Restavecs”, de Raíssa Maria Londero pesquisadora do projeto Brasil-Haiti: um novo olhar sobre um novo Haiti.

 

Os Restavecs, termo em francês que quer dizer “ficar com”, são crianças que vivem sob regime de escravidão após serem doadas por seus pais para famílias urbanas. Na esperança de melhores condições de vida, ao invés disso são obrigadas a intenso trabalho forçado e a inúmeros maus tratos. Segundo a pesquisadora, no caso de meninas a situação torna-se ainda pior pois também envolve a exploração sexual; cabendo a elas, inclusive, a iniciação sexual dos filhos legítimos dos seus senhores. E quanto mais nova melhor, pois menor é o risco de que elas sejam portadoras do HIV.  Essas meninas são chamadas “la pour cá” que significa “aqui para isso”.

 

Ainda segundo a pesquisa, um relatório da ONU de 2006, sob o título “Infância em perigo: Haiti”, aponta que cerca de 300 mil crianças estejam vivendo neste sistema. E que o governo haitiano atribui o problema a cultura, originada nas práticas coloniais oriundas da cultura africana. Enquanto isso os restavecs vivem em condições miseráveis e sem quaisquer perspectiva de futuro.

 

A pesquisadora encerra chamando a atenção para a ineficiência de qualquer estudo ou programa caso não seja dada a devida atenção para o problema dos restavecs. Diz ainda, muito acertadamente que “o ideal de justiça não é possível de ser estabelecido em um Estado onde a escravidão infantil está arraigada, e consentida”. Por tanto, é urgente que seja incluída no conjunto de ações para a estabilização ações que combatam e ponham fim nesta prática desumanda e cruel. Como acredito seja necessário também uma reforma educacional dirigida aos educadores e educandos, baseada em uma metodologia de diálogo, respeito e entendimento. Pois do contrário, qualquer ação será mera medida paliativa que não se estabelecerá por muito tempo.

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Eleições: uma ameaça para a estabilização e a segurança no Haiti

Posted by flaviosaudade em 17/04/2009

 

Para quem vive em um país onde não há guerras ou conflitos generalizados é díficil imaginar que, da noite para o dia, tudo pode transformar-se em um campo de batalha. Porém, esta é uma possibilidade com a qual estamos aprendendo a lidar nestes últimos dias.  

 

No próximo domingo, 19, serão realizadas as eleições para o senado, momento delicado que vem anunciando problemas há algum tempo. Meses atrás, ouvimos rumores de possíveis manifestações da população por conta da impugnação da candidatura ao senado de alguns candidatos do Lavalas, partido do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide, que fora deposto do cargo em fevereiro de 2004 sob acusação de violência política e corrupção. Segundo autoridades eleitorais as candidaturas não apresentaram as documentações exigidas e, por tanto, não foram aceitas. Ficamos sob estado de vigia, mas a manifestação, se ocorreu, não tomou grandes proporções.

 

Por conta da situação instável as escolas estão fechadas e fomos obrigados a suspender as nossas aulas até o desfecho das eleições, pois Kay-Nou, sede das ações do Viva Rio e das aulas do Gingando pela Paz, está situada em Bel Air, justamente em dos bairros onde está concentrada a maior parte dos problemas. Em nossa última aula, na quarta-feira, alguns dos alunos já nos avisavam sobre os problemas que estariam para ocorrer com as eleições e já traziam a notícia de que duas pessoas tinham sido mortas pela Polícia Nacional do Haiti (PNH) em Cité Soleil, que ao lado de Bel Air, por volta do ano de 2004, foi palco de intensos conflitos que lavaram de sangue as ruas, estigmatizando ambos os bairros e seus moradores.

 

As tropas brasileiras e de outros países já estão em alerta, realizando incursões pelas ruas. A PNH já está posicionada no Palácio do Governo e o presidente em exercício, Préval, pelo o que ouvimos dizer, parece estar de malas prontas para uma viagem, contrariando orientação da ONU.

 

Resta-nos aguardar e torcer para que tudo corra bem, que as eleições sejam realizadas de maneira pacífica e que o Haiti consiga dar mais um passo rumo à estabilização política para o fortalecimento do regime democrático. Desta forma, acredito, o povo começa a conscientizar-se da sua força e, principalmente, que o voto é a melhor arma para lutar pelos seus direitos.

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