Gingando pela Paz no Haiti

Relatos de um capoeirista em terras haitianas

Fim das Eleições. E os resultados?

Posted by flaviosaudade em 22/04/2009

 

 

Passadas as eleições, tudo parece voltar para a normalidade: as escolas retomam as suas atividades; as pessoas voltam a transitar pelas ruas. retomamos as aulas do projeto. Tudo parece caminhar bem, pelo menos até onde consegue alcançar o olhar de um curioso que se esforça em compreender esta cultura tão singular.

 

O saldo parece ter sido positivo, pelo menos no que se refere à segurança. Mas estas eleições demonstraram claramente a fragilidade em que se encontra o cenário político e o quanto o Haiti e sou povo têm de caminhar para vislumbrar a democracia, ainda que longe no horizonte. Para tentar entender um pouco melhor a situação sugiro a leitura do blog Ayitian Nuvels, de José Renato Batista. Em seu último post, intitulado “Fraude Eleitoral”, ou a minha experiência como Observador Internacional, ele fornece informações importantes sobre a situação política e relata ainda a sua experiência como Observador Internacional durante as eleições. Vale a leitura. Pelo menos para compreender que a orientação de escrever o nome embaixo do pé, como mencionei no post anterior, valia apenas para os haitianos.

 

Por fim, as eleições para o senado no Haiti foi uma clara resposta do povo ao processo eleitoral e de como esta eleição em particular se deu. O saldo: ruas e urnas quase vazias. Acostumado com as eleições no Brasil: “Programa Eleitoreiro Gratuito”; multidão de pessoas nas ruas distribuindo os sorrisos numerados; cartinhas parabenizando-me pelo meu aniversário, ainda que não seja; a “Lei seca” brindada a muita cerveja; ruas forradas de papel e postes poluídos de cartazes… Realmente, senti uma diferença e tanto.

  

 

“Emprenhar a Urna”: As Eleições no Brasil de outras épocas

 

Houve época em que as eleições no Brasil não eram tão civilizadas e que a democracia era um conceito ainda muito distante. O voto era direito de poucos e mesmo às mulheres era proibido o exercício. O momento era permeado de conflitos e arruaças promovidas por grupos de capoeiras que agiam em serviço para políticos. O número de votantes era reduzido e a violência e a intimidação garantia a fidelidade partidária.

 

Contexto que levou Machado de Assis a afirmar que “não há discurso, há recado; pede-se o voto ao ouvido, na esquina, ao voltarete, no bonde, à porta de uma loja. Às vezes pede-se ao mesmo tempo o fogo e o voto”. Urnas eram emprenhadas – recebendo maços de cédulas no momento da baderna – ou destruídas, quando sabia-se que o resultado desfavorecia este ou aquele candidato. O voto era feito de “cara limpa” sob o olhar atento e desconfiado dos valentões.

 

Hoje, o que era direito de poucos passou à obrigação de muitos. Ao meu ver camuflada de um exercício de cidadania. Não que eu não acredite na força do voto como ferramenta para o desenvolvimento e melhoria de uma nação ou situação, mas a obrigatoriedade no meu entender conflita fere este mesmo direito em sua natureza, bem como empobrece o próprio processo. Em fim, como ontem, hoje persistem práticas antigas como o “cabo eleitoral”, a troca de favores e a contratação de pessoal com recursos secretos (já não mais tão secretos assim…). Outras, como a intimidação e a ameaça, ameaçam ressurgir com a aparição  de novos atores que, portando armas bem diferentes dos “cacetes” e  as navalhas dos capoeiristas poem em risco a legitimidade do processo e a segurança dos eleitores.

 

De minha parte, em se tratando de política e de políticos, principalmente, tenho lá as minhas reservas. Particularmente, acredito que a política, a partidária, é como uma dimensão fantasma onde os vícios humanos se condensam, tomam forma e se travestem à moda da conveniência. Criam-se direitas, esquerdas e cambaleante tenta-se caminhar para a frente. Quanto a democracia, creio que nós brasileiros já conseguimos avistá-la no horizonte, basta seguirmos adiante ou, como nossos irmãos hatianos, mandar o nosso recado a quem de direito, ou esquerdo, ou qualquer outra coisa que seja.

 

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