Gingando pela Paz no Haiti

Relatos de um capoeirista em terras haitianas

Aprendendo a lidar com as emoções

Posted by flaviosaudade em 23/04/2009

 

Uma das valências da capoeira é oportunizar o contato e o controle das emoções. Assim como o aprendizado dos golpes e movimentos, este processo exige disciplina, dedicação e treino constante. E a roda é o ambiente onde isso ocorre com mais intensidade. Durante o jogo, em diversos momentos, o capoeirista é incitado a dominar as suas emoções. Desde a insegurança de entrar na roda e de ser percebido pelos outros até a necessidade de controlar o ímpeto de  atacar após ter levado um golpe.

 

Dois momentos específicos podem exemplificar bem isso. Com as eleições me demorei um pouco para escrever sôbre, mas o momento ofereceu uma oportunidade tão especial de aprendizado que não poderia deixar de compartilhar com os amigos.

 

Os dois aconteceram durante nossas rodas. O primeiro foi breve, mas bastante significativo. Estava no berimbau acompanhando o jogo de dois de nossos alunos; jovens com idade média de 15 anos. Um deles aplicou um golpe que acertou de raspão o rosto do outro. Pude perceber claramente no seu semblante o momento em que suas emoções irromperam. De início foi tomado pela raiva, que por pouco não o levou a deixar a capoeira de lado e agredir o seu companheiro. Porém, ele conseguiu controlar o sentimento e retomar a ginga. Ao final do jogo os dois se cumprimentaram e o jogo seguiu.

 

O segundo exigiu maior atenção. Ao receber o golpe o aluno, de 17 anos, saiu da roda muito contrariado. Deixei o berimbau para dar-lhe atenção. Enquanto as lágrimas corriam expliquei-lhe – dentre outras coisas, da necessidade da esquiva – que ele já havia aprendido, e, principalmente, que a sua amiga não tinha intensão em agredi-lo. Que a queda, além de fazer parte do aprendizado, é essencial para o amadurecimento do capoeirista. Aos poucos as lágrimas cessaram e logo ele estava de volta ao jogo.

 

Nestes exemplos, o que mais me deixou feliz foi saber que, fosse em outra época o desfecho de ambos os casos seria bem diferente. Antes a resposta a qualquer contrariedade era a violência. O diálogo era quase inesistente e permeado quase sempre de agressões verbais e juras de vingança.  Hoje, após alguns meses de trabalho e de muito diálogo a história começa a mudar. E para a felicidade de todos, para melhor.

 

 

 

 

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