Gingando pela Paz no Haiti

Relatos de um capoeirista em terras haitianas

Época das Chuvas

Posted by flaviosaudade em 17/06/2009

 

Um ou dois meses após chegar ao Haiti, em torno do mês de novembro, fiquei impressionado com a falta de chuva. Nenhuma só gota. Sol e calor todo o tempo. Paraíso para um carioca… se as praias aqui não fossem tão distantes ou a vida noturna tão insegura. Sentia mesmo a necessidade de ouvir o som ou sentir o cheiro da terra molhada; de tomar banho de chuva como fazia quando criança. 

Mas, nem sempre o som da chuva era um bom sinal. Quando criança minha mãe, meus irmãos e eu morávamos com a minha avó. Uma casa que sofria inundações constantes com as chuvas; de verão, principalmente. Sabíamos até de qual direção vinham as tempestades mais fortes. Corre-corre na madrugada. Levantar móveis. Fechar o buraco do esgoto. Ver a água entrar e tomar conta da casa… Ao menor sinal de trovoada e já não era mais possível dormir. Quantas noites cochilei com a sensação que a água molhava meus pés? Quantas vezes ficamos na madrugada limpando a casa? 

Ontem a tarde caiu uma chuva forte em Porto-Príncipe. Após um longo período sem chuvas, hoje chove quase todos os dias. Porém, diferente da época em que eu sentia falta de ouvir o som da chuva ou o cheiro de terra molhada, hoje mais uma vez sou tomado pela preocupação. Agora com as pessoas que vivem em situação ainda pior daquela que vivi. Famílias inteiras que dividem pequeninos e rústicos cômodos, muitos deles em áreas de alto risco, que vão desde deslizamentos, contaminação. Conheci uma dessas famílias no domingo, na ocasião em que visitei a casa da menina Kimberly (ver gostas de esperança), com a Colibri e amigos da Petit Troll. Sinceramente, é difícil acreditar que seres humanos vivam naquelas condições. E eu que pensava que tinha passado grandes dificuldades em minha vida…   

Caminhamos por algumas vielas, descemos alguns pequenos barrancos, atravessamos um riacho pulando sobre algumas pedras; riacho onde algumas pessoas caminhavam sem qualquer cerimônia; e onde, aparentemente, o esgoto é lançado. A Colibri caminhava com dificuldade por conta de uma cirurgia em um dos pés e vez ou outra pulava feito o Saci-Pererê. 

Para as pessoas que moram ali o anúncio da chuva deve ser uma grande preocupação. E neste período de furacões a vida deve lhes ser ainda mais difícil. No entanto, fomos recebidos com sorrisos muito acolhedores, com alegria. E taí um legado que aproxima ainda mais o povo brasileiro do haitiano. A alegria para nós é a nossa melhor arma. Pois ela nos permite enfrentar as dificuldades sem que a esperança se perca. É uma das nossas maiores riquezas e o que de melhor podemos oferecer de aprendizado para quem ainda não provou os frutos amargos de uma existência repleta de privações. 

E como sabiamente disse mestre Leopoldia em um trecho de uma das suas canções: 

 

“Quem tem, chora miséria

Mas quem não tem, é que sempre tem pra dá” 

 

E ainda que a casa seja pequenina e simples, ainda que ela não tenha cadeiras ou uma mesa a alegria das pessoas que moram nela não tem tamanho. E entregar-se para esta alegria é como tomar um banho de chuva e sentir o corpo e a alma fresca e renovada.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: