Gingando pela Paz no Haiti

Relatos de um capoeirista em terras haitianas

São Gonçalo do Amarante

Posted by flaviosaudade em 25/01/2009

 

O lugar onde nascemos pode falar muito sobre nós. Mas, talvez não nos demos conta da sua importância. Todas as coisas vividas, todas as coisas sentidas, a família, os amigos que compartilharam conosco de algum momento são como pedras que, postas umas sobre as outras contribuem para o nosso alicerce interior. E isso pode fazer uma grande diferença no decorrer de nossas vidas.

 

De minha parte, tenho muito forte as lembranças da terra de onde vim pequenininho. E devo dizer que carrego muitas recordações. Se alegres ou tristes, a verdade é que tenho comigo um pouco de cada uma delas. E sempre tive muitas pessoas ao meu lado. Assim, se alegres, foram bem mais alegres; se tristes, foi menos difícil superá-las.

 

Hoje, sinto-me como um livro onde para cada pessoa foi/é reservado um espaço. Dessarte, não creio que sou o que penso que sou. Posso ser para mim, mas não para os outros. Sou um para cada um, assim como cada um é um para mim. E como diz a viola de violeiro “não sou bom e não sou mal…”

 

A terra que acolheu meu primeiros passos foi São Gonçalo, na cidade do Rio de Janeiro. Um grande município que pulsa talentos e desejo de viver. Nasci no bairro de Nova Cidade, na Maternidade São Silvestre, onde abri os olhos para este novo mundo às 23 horas do dia 24 de maio de 1977. Dentre muitos que compartilharam comigo esta chegada, estava alguém que se tornaria um grande amigo, o Pacheco. Confrade do jogo de futebol pelas tardes e madrugadas, de muita correria atrás de cafifa, dos piques, dos objetos não identificados no céu… Esta ocasião no dia do nosso aniversário, inclusive. E temos (ainda temos?) a D. Rosa como testemunha.

 

Lá vivenciei muitas coisas, desde enchentes até falta de gás. Ou ainda quando os moradores se uniram para quebrar uma ponte para forçar a prefeitura a pôr fim às várias enchentes que aconteciam à cada chuva. Bem, a rua enche até os dias de hoje e, pelo que parece, os moradores resolveram aceitar a situação. Assim como aceitaram os vários assaltos que se tornaram uma rotina, mesmo à luz do dia.

 

Certamente, muita coisa melhorou, devo dizer. Diminuíram as correrias para ver um corpo estendido no chão (o que pode mudar caso alguém decida por fim ao play ground dos meliantes). Como também diminuíram as correria das crianças para pegar doces no dia de Cosme e Damião. Será que realmente diminuíram ou o “meu mundo” cresceu e dei-me conta que nenhuma dessas coisas eram tão grande assim?

 

É bem verdade que há quem não goste do lugar onde nasceu. Há quem um dia tenha desejado ter nascido em outras experiências… No entanto, cada um tem o seu quinhão nesta vida. E não se passa nada que não se deve passar ou que por nossas escolhas não tenhamos escolhido viver. Assim, tenho orgulho de ser um papa-goiaba e sinto-me demasiado feliz em poder ter compartilhado tantas coisas com tantas pessoas. Mesmo estando loge sinto ainda o cheiro da terra molhada que anunciava a chuva e o chão sob os meus pés de quando ia pelas manhãs até a padaria de Seu João para comprar pão, ou a cavaca.

 

E, estou certo, enquanto todas essas lembranças permanecerem em mim jamais estarei sozinho, esteja eu onde estiver.

 

 

Estação do pensamento

Saudade

 

Sempre foi o mesmo e nunca se queixou

Güentava o tranco sem reclamação

Se se demorava, não deixava de vir

Distante, cumprimentava

Dava gosto, alegria só de ouvir

 

Marcava a hora e por vezes apressado

Logo se ia embora

[Já são dezoito horas]

 

Atencioso, era um portas abertas

Aceitava de bom grado o que lhe reservava a vida

E era um montão de tudo:

Cachorro, bicicleta, trabalhador, vagabundo

Boa praça e um mudo

[Que não era]

Vendedor de lutres, capoeiristas, homens e mulheres, artistas

 

Mas os anos foram passando, e ele se foi amofinhando

[Entristecendo]

Foi sendo deixado de lado

[esquecido]

Com cara de amante largado

[De poucos amigos]

 

Mas, ainda o ouço cá comigo

[O mesmo cumprimento]

Parece até que está aqui

Na estação do pensamento

 

Será que ninguém mais consegue ouvir?

 

E ele ainda se vai, do Barreto até Itambi

E de tempo em tempo ele apita pra mim.

 

Piuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

 

 

 

 

 

 

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