Gingando pela Paz no Haiti

Relatos de um capoeirista em terras haitianas

Um retrato desolador

Posted by flaviosaudade em 14/01/2010

 

Menina observa os escombros

 

Nos dividimos em dois pequenos grupos. Um foi para Bel-Air, para ter informações da situação em Kay-Nou. Segundo soubemos, cerca de 1000 pessoas estavam lá, sendo atendidas pela brigada de emergência. Outro, em que eu estava, foi verificar se um amigo do professor Omar, da Unicamp, estava bem. 

Procuramos fazer o mesmo caminho que havíamos feito para ir ao Hotel Oloffsom no dia anterior. O cenário era o mesmo. Desolação. De lá seguimos em direção à casa do Sr. Gui (como o Prof. O chama). Sei que já devo ter repetido esta palavra diversas vezes, e nem sei quantas vezes irei repetir ainda, mas o cenário é de devastação e de completo abandono! Há muitos! Muitos prédios caídos. Destroços e ferro retorcido. Pudemos ver muitos corpos sobre e sob os escombros; pessoas que ficaram presas enquanto tentavam sair, pessoas que foram surpreendidas quando tudo veio à baixo; corpos em decomposição enfileirados nas calçadas. Homens, mulheres, crianças. 

Corpos eram retirados dos escombros e colocados nas ruas

 

Ao chegar na casa do sr. Gui, um choque; sua casa estava quase completamente no chão. Mas, graças a Deus, ele estava bem. Encontramos um senhor de pijama, sentado no quintal. Ele perdera tudo, tudo. Gentilmente, e corajosamente, ele levantou-se para buscar cadeiras, dentro de uma casa praticamente destruída, repleta de rachaduras. O que mais impressiona, é que ele nos disse que ainda dormia na casa; seu quarto fica no segundo andar, após subir um escada que está torta e com risco de desabamento. Aliás, toda casa está. Através da solidariedade de amigos, segundo ele, na última noite alguns os sequestraram para que dormisse em suas casas. Espero realmente que o próximo sequestro seja bastante longo. 

Dali seguimos para Champ du Mars. Um verdadeiro depósito de pessoas. Barracas e pessoas para todos os lados, esperando. É importante dizer que não assistimos qualquer situação de conflito sequer, nenhuma tentativa de saque ou brigas entre gangues. Vimos sim, um povo entregue à própria sorte, com escessão de um pequeno grupo de jovens escoteiros. Não vimos qualquer viatura da ONU, ambulâncias; qualquer distribuição de comida por órgãos humanitários. Pelo contrário, vimos haitianos ajudando haitianos. A comida ainda continua sendo feita pelas mulheres, com suas grandes panelas, na lenha. Compramos 15 “quentinhas” e tomamos o caminho de volta para a casa. A missão naquele momento era chegar com a comida em casa… Chegamos, após sermos abordados por um homem querendo comida, e após uma bela caminhada. 

as praças se tornaram campo de refugiados

 

 

O que as pessoas precisam saber, é que a situação é bem mais crítica do que podemos perceber pela tv. Mesmo nós na casa, não podíamos ter a noção do tamanho desta tragédia, até ir para as ruas. Prédios estão no chão, pessoas mortas e à mostra entre as grandes lajes. Outros corpos estão sendo retirados pelas próprias pessoas e colocadas nas ruas, nas calçadas. E, o que mais me deixa impressionado: uma total omissão das instituições humanitárias, dos órgõas de segurança. Com execessão de algumas viaturas da polícia e uma da tropa brasileira que passou por nós. 

Ouvimos sempre que a ajuda está chegando, mas ainda não conseguimos ver esta ajuda. Temos sim, algumas organizações que já atuam no país em atividade, pessoas se mobilizando, porém a urgência maior é retirar as pessoas dos escombros e isso, infelizmente, está além de nossas possibilidades. E enquanto o tempo passa, maiores serão as perdas e o sofrimento dessa gente. 

Lá fora as pessoas cantam. Apesar do sofrimento há esperança.

[assista um vídeo que mostra como ficou Bel-Air após o terremoto]

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4 Respostas to “Um retrato desolador”

  1. Heleno said

    Amigo Flavio Saudade, paz e bem. Estamos todos muito consternados aqui no Brasil. Sou de São Paulo e amante da capoeira.

    Tamanha tragédia. Ao escrever estou às lágrimas. Justamente com um povo tão sofrido e marcado por tantas dores.

    O trabalho que vc e o pessoal do Gingando, e ainda o Viva Rio desenvolvem aí é muitíssimo importante e belo. Só de pensar me arrepio e me emociono.
    Amigo, aguente firme. O Bom Deus há de lhe dar muita força e Graça para auxiliar muitos e enfrentar toda dificuldade. Tenho certeza. A semente que vocês plantaram aí, há de dar muitos e muitos frutos amigo, você verá.

    Estarei com o pensamento em vocês e orando por vocês, para que tudo vá bem.

    Fique na paz. Axé.

    Heleno.

  2. Albertina said

    Flavio:

    Meu coração se aquieta um pouco por saber que você está com saúde, podendo fazer o que sabe realizar muito bem: ajudar o próximo.

    Seu relato é emocionante. Pensávamos ter ideia da dimensão da tragédia pela TV. Você nos mostra a realidade muito mais cruel.

    Há situações que gostaríamos de entender: Por que o povo já tão sofrido ainda tem de passar por tanta tristeza pelas perdas? Por que um “anjo” como Zilda Arns, já com 75 anos, viaja para falar a 150 pessoas e perde lá a vida terrena?

    Só nos vem a resposta pela presença de grupos de pessoas que ajudam a equilibrar essa situação trágica para todos nós. Que você, Flavio, e todos que estão aí ajudando, sejam iluminados para dar a nossos irmãos o alento de que necessitam.

    Abraços.

    Albertina

  3. Catharine said

    Queria poder está aí, segurando a mãozinha da criança que chora, afagando-a em meu braços, olhar nos olhos da mãe aflita e falar que vamos conseguir, ajudar os mais velho a caminhar para um lugar “mais seguro”, existem os mortos mas também os que estão vivos e por eles precisamos ser fortes e em uma voz de comando tentar a organização rápida pois cada ser humano que vive é uma vitória sem palavras. Fiquem todos com Deus. Meu coração e pensamento está todo voltado para vocês, tenho certeza que quando meu corpo finalmente se abate na cama, minha alma corre ao encontro de vocês, tentando encontrar aqueles sorrisos que ficaram aí quando me despedi das crianças e de todos. P
    Beija-flor

  4. Eduarda (VivaRio) said

    Flávio,
    Obrigada pelos fortes relatos. Sempre que puder, nos mande essas informações.

    Estão todos mobilizados por aqui, olhando para o Haiti e procurando várias formas de ajudar.

    Boa sorte! Estou à total disposição de vocês.
    Eduarda

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