Gingando pela Paz no Haiti

Relatos de um capoeirista em terras haitianas

O Blanke, o Voleur Cabrit e o Bon Bagay

Posted by flaviosaudade em 01/05/2009

 

O Blanke

Há um tempo atrás enquanto via algumas fotografias antigas na casa de um tio tomei um susto ao me ver recém-nascido; tinha o cabelo negro, liso e um par de bolas de gude azuis no lugar de olhos. Com cerca de oito ou nove anos de idade o cabelo encrespou e os olhos esverdearam, passei a ser chamado de “Amarelinho da Shell”. Com dezoito anos, ao alistar-me no exército, fui classificado como pardo. Após iniciar na cartilha da capoeiragem aos quatorze e de me enveredar na história com um olhar mais experimentado e curioso senti mais forte a minha negritude e passei a ter orgulho dela.

Ao chegar ao Haiti a história mudou novamente. Aqui sou considerado branco, ou blanke. A princípio pensei que fosse pela população do Haiti ser de maioria negra e eu estar mais para o pardo. Porém, esta semana uma senhora me esclareceu melhor esta história. Após ser chamado de blanke perguntei o motivo, pois tínhamos quase a mesma cor. Segundo ela, ser um blanke não tem haver com a cor, mas com o idioma. Disse que eu seria um blanke por falar outro idioma e ainda que eu fosse negro e não dominasse o idioma, ainda seria considerado assim. Argumentei que não era branco, era brasileiro, que o brasileiro não era branco nem negro, era “a lot bagay”, uma outra coisa. Ela permaneceu na defensiva. Investi novamente. Perguntei como eu poderia ser um blanke se estava falando com ela em criole. Após refletir saiu pela tangente dizendo que ainda assim eu seria um blanke.

Esta é uma cena muito comum, vez ou outra os haitianos nos tratarem assim, algumas vezes de maneira irônica e outras com uma grande carga de ressentimento. Ambos muito compreensíveis a julgar pela forma que foi forjada a história deste país.

 

O Voleur Cabrit

Este ressentimento parece ter agravado com a presença internacional no Haiti. Pelo o que posso perceber existem haitianos contra e a favor da missão para estabilização. Os que são contra defendem a soberania da nação; os que são a favor dizem que não fosse a presença das tropas voltariam os conflitos. E uma história curiosa marca essa relação. Segundo um amigo haitiano, após um ano do início da missão um grupo de soldados jordanianos capturaram dois cabritos que estavam soltos na estrada. O povo prontamente respondeu os chamando de “voleur cabrit” ou ladrão de cabrito. O que era apenas uma forma de contestar a atitude dos soldados a acabou por se tornar um apelido para os membros da MINUSTAH, soldados, principalmente. Ou qualquer blanke que eles juguem fazer parte.

Eu também já tive o meu dia de voleur cabrit. A ocasião aconteceu em nossa primeira apresentação, no Tambou Lapé. Após cantarem conosco o Paranaê e outros cânticos um coro só tomou conta da multidão: voleur cabrit! Béhhhhhhhhh! Voleur cabrit! Béhhhhhhhhhhhh! Só fui entender o que eles diziam após ver as imagens e um haitiano nos explicar o significado e a história. Mas, a julgar pela receptividade anterior, ser chamado de ladrão de cabrito até que valeu a pena.

 

O Bon Bagay

Após a experiência de ser titulado pela multidão de “ladrão de cabrito”. E o que é pior, dançar enquanto o povo cantava, um refresco. Os brasileiros aqui, os soldados, principalmente, são conhecidos como “Bon Bagay, mais ou menos como o nosso “gente boa”. Segundo soube o apelido se deu por conta da atuação diferenciada da tropa. E, claro, contou com a afinidade dos haitianos com o Brasil, que em alguns casos beira, ou chega mesmo ao fanatismo. Muitos deles se dizem “fanatics” quando o assunto é o Brasil.

Pude presenciar um bom exemplo disso hoje pela manhã. Estávamos em um evento em comemoração ao dia internacional da árvore e do trabalhador na Praça da Paz. Muitas pessoas estavam presentes para a cerimônia, o embaixador, a embaixatriz, representantes da MINUSTAH, do Ministério do Meio Ambiente do Haiti e, claro, nossas crianças. Uma multidão aglomerou-se na rua, uns 200 metros de onde estávamos; uma correria. A população agredia um sujeito que, pelo que parece, tinha tentado furtar um cordão. Por sorte dele a tropa brasileira estava presente para efetuar a prisão e encaminhá-lo para as autoridades locais. A ação exigiu bastante paciência e sangue dos nossos soldados pois a população estava enfurecida. No entanto, tudo foi resolvido sem precisar recorrer à força. Por este e outras é que a nossa tropa é chamada os “Bon Bagay”.

Anúncios

2 Respostas to “O Blanke, o Voleur Cabrit e o Bon Bagay”

  1. Lone Havemose said

    Hello Flavio!

    My name is Lone and I am a capoeirista from Sweden. I happen to live in Port-au-Prince at the moment and I’m really interested in your project! Can I come an visit? Maybe I can help in some way! I’d love to just play some capoeira aswell. Well, you have my email-adress, I would be very happy to hear from you!

    Regards,
    Lone Havemose

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: