Gingando pela Paz no Haiti

Relatos de um capoeirista em terras haitianas

O início das ações do Gingando pela Paz

Posted by flaviosaudade em 20/01/2009

 

 

Espaco onde são realizadas as atividades do projeto

 

Porto Príncipe lembra, pelo menos das minhas leituras, a Cidade do Rio de Janeiro pós-abolição. De um lado o negro, forçado a viver sem qualquer condição, sem qualquer estrutura ou apoio, vendo-se obrigado a desenvolver técnicas, quaisquer que sejam, para garantir o seu sustento e o mínimo de dignidade. Do outro, a burguesia, cercada de conforto aparentando viver em outro mundo, temendo aquilo que não conhece. Na população, cada vez mais profunda as marcas do individualismo onde cada um defende os seus interesses com unhas e dentes (e pedras). E é justamente esse tipo de comportamento que encontramos no início das nossas atividades. Crianças extremamente violentadas, agredidas de todas as maneiras possíveis, acostumadas a utilizarem da violência para solucionar os seus problemas. De fato, é tarefa difícil falar de valores como respeito, solidariedade e companheirismo para quem nasceu num universo tão hostil. Por outro lado, é este mesmo universo que nos inspira ao trabalho, e nos faz acreditar que a mudança é possível e trabalhar para que ela aconteça.

 

 

E é com base nestes mesmos problemas, a medida em que eles ocorrem, que buscamos recursos para desenvolver nossa metodologia de trabalho. A capoeira tem a valência de fazer com que as pessoas externem os sentimentos e é no momento em que isso ocorre quando temos a oportunidade de orientar o aluno de maneira que ele desenvolva o controle de suas emoções. E a capoeira, está mais que comprovado, é uma ferramenta importantíssima para todo este processo. Seus recursos são de grande eficácia e agem exatamente no foco do problema. Durante o jogo o aluno está em constante processo de aprendizado; momento em que lhe é exigido, antes de qualquer coisa, o auto-controle. E o que acontece na roda passa a ocorrer também fora dela. E em pouco tempo o aluno apresentará o mesmo comportamento onde quer que esteja. Este é um dos grandes benefícios da capoeira.

 

 

 

A importância de um acompanhamento pedagógico

 

Para dinamizar todo esse processo, contamos com uma assessoria pedagógica que atua no sentido de potencializar a valência educacional da capoeira. Ela atua na elaboração, desenvolvimento e avaliação das atividades, bem como na construção de uma metodologia de ensino. Desta forma, buscamos criar e aproveitar todas as oportunidades de maneira a tornar o aprendizado ainda mais significativo para para que a capoeira realmente se transforme em um elemento para transformação da sua realidade. Outro ponto fundamental foi a presença feminina, que está contribuindo para a  ruptura da cultura machista e, principalmente, reforçando os laços de afeto. Em um país onde a mulher é considerada inferior e submetida a inúmeras formas de violência, sem dúvida, ver uma mulher jogando capoeira, tocando um instrumento ou ensinando irá favorecer a geração de uma nova consciência e consequentemente uma nova postura. 

 

 

Alguns resultados importantes

 

 

Trabalhamos com um grupo bem diversificado; temos crianças e jovens com diferentes perfis e histórias de vida. No entanto, boa parte delas são de rua ou em situação de rua.  Algumas delas já cometeram delitos, viveram ou vivem muito proximas às guangues. Para nos apoiar, contamos com alguns animadores, jovens que já passaram pelos mesmos problemas, se recuperaram e hoje trabalham com o Viva Rio. Durante as aulas, observamos que a forma de os animadores chamarem a atenção dos alunos era muito agressiva e tentamos mostrá-los uma outra maneira de lidar com as crianças. Porém, eles argumentavam que as crianças haitianas eram diferentes e que deveriam ser tratadas de forma severa. Nosso contra-argumento foi mostrar que criança é crianca em qualquer lugar; já havíamos trabalhado com crianças em situação de rua no Rio de Janeiro e iríamos agir da mesma forma, pois aquele era o princípio do projeto. Pedimos que confiassem e tivessem paciência, pois logo iriam compreender o que estávamos propondo.

 

E o exemplo não tardou para acontecer. Pouco depois da nossa conversa, enquanto estávamos todos juntos em roda, uma das crianças estava chupando dedo. Como acontecia normalmente, um dos educadores iria repreendê-la com veemência. Mas, naquele momento fizemos diferente. Ao notar que o aluno estava com o dedo na boca pedi que ele segurasse o caxixi (pequeno chocalho) e o berimbau, um em cada uma de suas mãos. Um dos animadores ficou observando e me sorriu. Naquele momento tive certeza de que ele compreendera a proposta. E a confirmação veio pouco tempo depois, quando a coordenadora dos educadores comentou ter notado uma mudança no comportamento deles, eles aparentavam estar mais pacientes com as crianças. E o Canário ja não chupa mais o dedo.

 

 

A atitude dos educadores provavelmente seja um reflexo do rígido sistema educacional do Haiti. Nas escolas, segundo ouvimos, as crianças convivem ainda com duras práticas disciplinares. Como ficar de castigo de joelhos, chicotes e réguas. Parece mentira, mas é uma realidade por aqui. E o que parece ser uma forma de “disciplinar” serve apenas para comprometer a capacidade de diálogo. A medida em que suas emoções são suprimidas eles perdem a oportunidade de controlá-las. O resultado deste processo são pessoas agressivas que explodem à qualquer sinal de contrariedade. Prova disso são os conflitos entre as pessoas por questões banais.

 

 

 

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2 Respostas to “O início das ações do Gingando pela Paz”

  1. Albertina Ramos said

    Muito bom tudo o que li. Gostaria muito de estar aí no carnaval. Vou publicar o endereço no Papo livre sobre literatura, que escrevo no portal da faculdade UniCarioca, no Rio de Janeiro, BR, e discutir os textos com alunos de Comunicação.

    • flaviosaudade said

      Olá minha querida e inspiradora mestra,

      Estou muito lisonjeado por receber o seu comentário e mais ainda pela possibilidade de os textos se tornarem um conteúdo para as suas aulas, sempre tão inspiradoras (saudade grande!). Se desejar, quando estiver no Brasil, em março, poderei participar de um bate papo com alguns alunos. À época que estava na Academia do Concurso Público ficamos de realizar uma palestra, mas houveram alguns imprevistos e não foi possível… Mas, acho que agora tenho um pouco mais de histórias para contar [risos]. Será que o nosso querido reitor iria gostar da idéia? Aliás, preciso mesmo bater um papo com ele, pois tranquei a faculdade para viajar, mas creio que existe um prazo para o tracamento. E, de maneira alguma, posso deixar a minha formação de lado… até pelo fato de faltar alguns poucos meses para concluir o curso… Em fim, estou à disposição.

      Beijo grande para toda família Unicarioca

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