Gingando pela Paz no Haiti

Relatos de um capoeirista em terras haitianas

A rua e as pessoas

Posted by flaviosaudade em 13/01/2009

 

O mercado
 
Dias atrás visitamos o mercado. Uma quantidade enorme de barracas por todos os lados fazem a Uruguaiana (grande centro comercial no Rio de Janeiro) parecer um paraíso. Passamos por verdadeiras vielas onde era possível encontrar desde comidas até tênis do tipo made in Paraguai e muitas outras coisas usadas. Em fim, mesmo cenário que a nossa USA (Uruguaiana “Squina” com Alfândega). Após caminhar muito pude perceber que aqui, como aí, as lojas são divididas por “departamentos’.
 
Dois deles me chamou muito a atenção. O primeiro foi do departamento de sapateiros. Uma quantidade de homens e suas máquinas de costura, sapatos e couro pra todo os lados. A segunda foi um grupo de mulheres vendendo suas mercadorias sob a a’gua suja, literalmente; sentadas sob seus bancos usando botas ou com os pés apoiados sobre as suas bancas, usavam um grande chapéu de palha à moda mestre traíra (antigo mestre da capoeira da Bahia). Me parece que os espaços aqui são extremamente disputados. Resta saber se é preciso pagar por eles…
 
Regra geral, e’ preciso pesquisar preco e pechichar ate’ o ultimo instante, pelo menos no comercio de rua, onde com uma boa barganha o preco pode baixar pela metade.  Outro ainda, e’ que parece existir uma rede de vendas entre as pessoas. Basta dizer que esta’ precisando de algum produto e logo aparece algue’m para lhe oferecer o que voce esta’ precisando. E’ impressionante. Mas, existem supermercados também, com seguranças armados (portando uma espingarda calibre 12 em suas entradas. Os supermercados quase não possuem janelas e juntamente com os seguranças reforçam a prevenção contra saques (coisa que parece bem comum em época de conflitos). Com produtos totalmente importados, pelo que pude observar, a comida é bem cara. No entanto, é possível saborear um bom queijo suiço e uma boa manteiga francesa à um preço bem mais em conta que no Brasil.
 
Mas, ainda assim, para os haitianos o  preço é muito elevado. Reflexo talvez da vinda das instituições internacionais que superinflacionou os preços, como dos aluguéis, principalmente. E além do aluguel, é preciso pagarmos também por um aparelho chamado reverté, aparentemente algum dispositivo que utiliza baterias de carro para o caso de falta de energia; coisa bastante comum por aqui. A utilzação do reverté é fundamental, a nao ser que se deseje passar periodos `a luz de velas. Ate’ o momento nao encontrei nenhum shopping e pelo que entendi eles nao existem por aqui, assim como nao existem MC Donald`s. De fast-foof apenas a pizzaria Domino`s, mas parece que a pizza e’ um pouco cara.
 

Ao cair da tarde
 
Eis que ao cair da tarde um cenário impressiona. Uma massa de pessoas, migrando do centro para as suas casas, lembram uma cena de retirantes. Tabuleiros, bacias e vasilhames na cabeça e as pessoas, mulheres em sua maioria, voltam para as suas casas após um dia de intenso trabalho. Vale dizer que grande parte não encontrarão luz elétrica em suas casas… Assim, é muito comum as pessoas formarem pequenos grupos em frente às suas residências. Por um lado isso é bom, pois as pessoas exercitam o diálogo e trocam experiências, quaisquer que sejam elas. Diferentemente de lugares onde a televisão e todos os recursos da tecnologia acabam por individualizar as pessoas em suas casas, quartos, lan houses, comprometendo as relações sociais. E claro, é possível encontrar crianças aos montes pelas ruas. E sem a tv, ou sem energia para a tv, não é difícil ter uma idéia da taxa de natalidade.
 
De certo, existem lugares aqui onde não nos deparamos com valas, lixo. Como no entorno da sede do Governo e em lugares acima de Pationville, onde ocorreu o desabamento da escola, é possível encontrar trânsito com guardas, ruas limpas, escolas de qualidade. Subindo mais ainda as coisas tendem a melhorar, até mesmo o clima muda. No entanto, é comum encontrar nestes lugares pessoas que vivem cercadas de luxo, mas rodeadas de seguranças. Muitos são funcionários de organizações internacionais, que vivem sob intensas recomendações de segurança.
 
 
Indo para o norte ou para o sul podemos encontrar algumas praias; belissimas praias que me lembraram muito a Armacao de Buzios. Aguas claras de um azul inebriante nos dao a sensacao de que estamos em um outro pais e de que todos os problemas que estamos acostumados a ver nao existem. Impressiona ver duas realidades tao distintas em um mesmo pais. E e’ realmente dificil acreditar que exista tanta miseria em um lugar que guarda tamanha beleza. Diferentemente do centro, onde a concentracao populacional e os problemas sao grandes a medida em que nos aproximamos do mar, ao norte ou ao sul do Haiti encontramos bairros que, aparentemente, nao sofrem com tantos problemas. E’ possivel encontrar mais a’rvores, animais (cavalos e gado), e ate’ mesmo o ritmo parece ser outro. Certamente, a miseria ainda persiste. No entanto, pela proximidade do campo, creio que ela se de num grau um tanto menor que na cidade.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: